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Guedes: prisioneiro de duas armadilhas

Um dia depois do segundo turno das eleições de 2018, o futuro ministro Paulo Guedes falava grosso com a imprensa. Perguntado por uma jornalista se o Mercosul seria desmontado pelo novo governo, Guedes subiu o tom. “O Mercosul não é prioridade. Não, não é prioridade. Tá certo? É isso que você quer ouvir? Queria ouvir isso? Você tá vendo que tem um estilo que combina com o do presidente, né? Porque a gente fala a verdade, a gente não tá preocupado em te agradar”, disparou o economista.

Esse espírito acompanhou Guedes nos primeiros meses de sua gestão, sempre prometendo implementar uma agenda liberal no Brasil, a começar por um ambicioso programa de privatizações, que seria pilotado pelo empresário Salim Mattar, um defensor histórico da diminuição do tamanho do Estado brasileiro.

O presidente Jair Bolsonaro, com o estilo centroavante rompedor, passou boa parte de seus primeiros meses brigando até com a sombra, até que acertou sua base de sustentação política com o Centrão. Coincidência ou não, o programa de privatizações, que nunca chegou a decolar, passou a ser discretamente boicotado. Em agosto do ano passado, ao perceber que o carro estava atolado, Mattar resolveu deixar o governo, pois enxergava que o governo não iria privatizar tão cedo uma só estatal.

A saída do empresário, juntamente com a do secretário Paulo Uebel, abalou a proposta original de Guedes, de seguir o caminho do liberalismo. Veio a pandemia e mais um preceito da ortodoxia econômica, o cuidado com o déficit público, foi dinamitado.

Ao desistir, pelo menos temporariamente, de sua agenda, o ministro Guedes foi murchando. Hoje, pouco lembra o valentão que deu uma resposta atravessada na coletiva de outubro de 2018. O tigrão virou um gatinho, prisioneiro de duas armadilhas.

A primeira é que Guedes se apegou demais ao poder e foi fazendo uma concessão atrás da outra. Perdeu a linha mestra de sua administração, mas ainda acredita ser o fiador econômico de Bolsonaro. É leal ao presidente e só sairá da Esplanada diante de uma humilhação muito grande – porém, estaria disposto a aguentar ultrajes menores.

A segunda diz respeito ao passado. Durante muito tempo, ele foi visto como um economista exótico, que criticou todos os planos econômicos de outrora, pois se manteve fiel à escola de Chicago. Assim, o cargo de ministro seria sua redenção. Portanto, ele também se mantém na Esplanada por achar que ainda pode reverter o quadro de esvaziamento e, após a pandemia, retomar suas propostas originais. Guedes parece estar enclausurado em particular nessa obsessão.

A questão que permanece, porém, é: o Centrão vai deixar que a agenda liberal de fato aconteça? Lembremos que esse grupo é movido a cargos e a verbas. Cada estatal privatizada significa menos cargos a ocupar e menos verbas a manipular.

A privatização da Eletrobras consta da lista de 35 prioridades do governo que o Centrão vai trabalhar no Congresso. Vamos deixar de lado, por enquanto, a discussão de que um compêndio de 35 itens é extenso demais para usarmos a palavra “prioridade” na definição de cada tópico. Vamos nos concentrar na intenção de se privatizar ou não estatais. Há mesmo esse propósito? Ou o tópico está lá apenas para constar e agradar o mercado financeiro?

Os agentes deste mercado estão pessimistas neste quesito em particular.

A aguardada venda dos Correios, de fato, permanece embaçada. Anteontem, o ministro das Comunicações, Fábio Faria, disse que o processo deve ocorrer até o final deste ano e citou uma pesquisa na qual 79 % dos brasileiros se pronunciam favoráveis à privatização da estatal. Mas, Faria deixou a porta aberta para refugar, dizendo a desestatização pode sofrer “pressões” se ficar para 2022, ano de eleições.

Em um podcast recente, Guedes admitiu que entregou menos do que prometeu. “Em algumas coisas, ficamos para trás. As privatizações estão muito atrasadas, bastante”, afirmou. Enquanto as vendas de estatais não saírem do papel, Guedes dificilmente vai se reencontrar dentro do governo. Seu limite, ele avisou, está numa mudança de rumo econômico muito radical. “Se eu estiver conseguindo ajudar o Brasil, fazendo as coisas em que acredito, eu devo continuar”, disse o ministro. “A ofensa não me tira daqui. O que me tira é a perda da confiança do presidente, ir para o caminho errado. Se eu tiver de empurrar o Brasil para o caminho errado, eu prefiro não empurrar. Isso não aconteceu”.

Guedes também entra em um caminho perigoso para qualquer homem público – aquele em que se considera alguém que entrega mais do que recebe em reconhecimento. “Podia estar viajando, rodando o mundo, fazendo outras coisa e estou preso de manhã, tarde e noite”, queixou-se. “Não sei que dia é sábado, domingo, não sei as horas. Acorda, trabalha, lê, trabalha. Mas é um senso de missão”.

O que parece, diante dessas declarações, é que o ministro deixou de pilotar sozinho o trem. Virou passageiro ou, na melhor das hipóteses, copiloto. Conseguirá voltar ao assento anterior? Teremos a resposta mais rápido do que imaginamos.

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