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Free flow: o Brasil está pronto para o pedágio sem cancela?

Lorena Scavone Giron
10 de outubro de 2025
Especialistas explicam funcionamento da IA nacional e apontam para gargalos regulatórios e estruturais que geram dúvidas sobre a expansão do modelo

O avanço das concessões rodoviárias no Brasil promete injetar R$ 46,7 bilhões em investimentos em infraestrutura e tecnologia. No centro dessa transformação está o free flow, sistema de pagamento eletrônico que dispensa praças físicas e promete viagens sem filas, maior fluidez no trânsito e redução de emissões.

Mas, enquanto o modelo ganha espaço em novos lotes de concessões, persistem dúvidas sobre segurança, confiabilidade, viabilidade regulatória e preços acumulados. Durante audiência pública realizada pelo governo federal em setembro, consumidores e especialistas debateram a precisão dos pórticos, a gestão dos dados e a integração com sistemas de cobrança.

Para o professor de engenharia dos transportes da Poli-USP, Cláudio Barbieri, diminuir os gargalos e congestionamentos deve vir acompanhado de outras melhorias, como tarifas mais justas, cobradas proporcionalmente aos quilômetros rodados. “Muitas pessoas têm a sensação de que estão pagando muito. O free flow vai permitir uma cobrança mais justa, porque os pórticos podem ser instalado a cada 5 quilômetros e acaba que a cobrança pode ser feita de maneira proporcional à distância percorrida”, afirma.

“No momento em que a concessionária pode substituir uma praça de pedágio, que é uma estrutura que exige manutenção, tem vários equipamentos e muitos funcionários trabalhando 24 horas, por uma estrutura de cobrança automática muito mais barata, pode até ser possível reduzir a tarifa de pedágio”, argumenta.

Desafios da expansão

Ailton Queiroga, presidente da Compsis, empresa de São José dos Campos especializada em soluções de inteligência artificial para rodovias, destaca que a tecnologia brasileira já é competitiva e precisa apenas de um ambiente regulatório mais claro para se consolidar. “Não há o que temer. O free flow é uma realidade em mais de 20 países, e o Brasil tem tecnologia nacional de ponta, capaz de operar com alta precisão em tempo real, mesmo em condições adversas”, afirma.

A Compsis, que já participou de projetos internacionais na Austrália, em parceria com Siemens e Philips, hoje lidera a implementação de sistemas 100% nacionais de IA para free flow em cinco regiões do país, incluindo o Rodoanel Mário Covas, na Grande São Paulo.

Segundo Queiroga, a principal barreira é regulatória, já que ainda faltam regras unificadas para cobrança, integração ao Registro Nacional de Infrações de Trânsito (Renainf), sistema da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) que reúne informações sobre multas de trânsito aplicadas em estados diferentes. Além disso, muitos contratos antigos de concessão não previam o modelo, e parte das operadoras ainda não tem estrutura de backoffice adequada ao novo sistema.

Usuários

O engenheiro aponta também a um desafio de comunicação: o motorista precisa entender claramente como é feita a cobrança e confiar na precisão dos registros. Muitos ainda desconfiam da precisão da leitura de placas e tags eletrônicas, temendo cobranças indevidas ou a dificuldade de contestar erros. A ausência da cancela física dá a sensação de “falta de controle” sobre o pagamento. “Investimos em plataformas como o Sicat Pay, que garantem transparência total ao usuário, mostrando datas, locais e valores de cada passagem”, explica.

Na parte regulatória, há o desafio inevitável na implantação da gestão das inadimplências. Como o sistema depende de cadastro prévio, meios eletrônicos (tag, app, Pix, boleto) ou pagamento posterior, há receio de multas por atraso ou desconhecimento de como quitar. Esse ponto é crítico para quem não usa tags automáticas ou não tem familiaridade com tecnologia.

Outro desafio é como conduzir a campanha informativa. A falta de informação visual clara e visível sobre onde e como pagar o free flow já provoca multas e confusões. Há também a impressão de que o free flow pode gerar cobranças mais frequentes, já que o pedágio será proporcional ao trecho percorrido. Isso gera dúvidas: para alguns motoristas pode ser mais justo, mas para outros pode significar maior gasto em relação ao modelo tradicional de praças fixas.

Distorções pontuais

O professor de engenharia do Mackenzie e especialista em mobilidade, Dário Reis, acredita que alguns usuários podem sair prejudicados. Seriam caminhoneiros, motoristas de aplicativo, pessoas que usam constantemente uma rodovia podem ter seus custos elevados com a cobrança sucessiva nos pórticos. Ele dá como exemplo a cidade de Sorocaba, onde os moradores utilizam a rodovia para deslocamentos cotidianos, indo e voltando ao trabalho, cuidando de afazeres ou visitando parentes, em deslocamento curtos.

Benefícios

Superados ou não estes desafio,s os principais ganhos virão da redução da poluição, o menor custo operacional — que pode resultar em tarifas mais justas — e mais segurança e fluidez nas viagens. A próxima etapa de evolução, segundo Queiroga, será a automação total do backoffice e o uso de IA para monitoramento de tráfego e segurança viária em tempo real, como no sistema Eaglevision, já em desenvolvimento pela Compsis.

Para o especialista, o pedágio com cancela ainda deve coexistir com o free flow por alguns anos, especialmente em rodovias menores. Mas a tendência é clara: “Nos grandes corredores, o free flow vai dominar. E com tecnologia brasileira”.

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