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EUA e Brasil: as duas faces do desemprego

Ontem, o Washington Post publicou que foram criados em julho 943 000 postos de trabalho nos Estados Unidos. Trata-se de pouco menos de dez por cento das dez milhões de vagas existentes no mercado americano nos dias de hoje – e o detalhe é que as empresas estão sofrendo para encontrar mão-de-obra. Por aqui, vivemos uma situação inversa: há quinze milhões de desempregados e as vagas disponíveis são voltadas apenas para quem tenha alto nível de formação e/ou experiência ou atuam em nichos específicos.

Boa parte desses dez milhões de empregos nos EUA é referente a posições que não requerem formação universitária, como garçons, atendentes e estoquistas. Por isso, muitos restaurantes avisam seus clientes logo na recepção que o serviço será moroso por falta de um número suficiente de profissionais. Um caso registrado na matéria do Post é o de uma franquia da Subway em Memphis. Há uma placa na vitrine do estabelecimento que diz: “Devido à falta de empregados, estamos temporariamente fechados nesta semana. Pedimos desculpas pelo incômodo”.

No Brasil, o fenômeno é exatamente o oposto. Até se encontram vagas sem necessidade de qualificação nas empresas de logística que cresceram com a explosão do e-commerce. Mas a maioria das vagas disponíveis na praça é de engenheiros e profissionais de tecnologia. A escassez é tão grande que as empresas ficam contratando quem está na concorrência, inflando salários que já estão altos.

Uma boa parte deste desinteresse pelas vagas oferecidas nos Estados Unidos tem a ver com o seguro-desemprego pago em plena pandemia – muitos beneficiados estão esperando ofertas com maiores salários para desistir de receber um contracheque do governo. Mas, além disso, há uma mudança de mentalidade no mercado americano que torna um candidato mais arredio. Muitos se acostumaram a trabalhar remotamente durante o período de isolamento e desejam continuar trabalhando de casa – enquanto a maioria das vagas oferecidas na Terra do Tio Sam é de colocações que exigem presença física no emprego.

Esses dois fenômenos opostos, no Brasil e nos Estados Unidos, vão provocar transformações profundas nas empresas e no mercado de trabalho.

No caso do Brasil, o mercado de tecnologia (hoje, um dos mais atingidos pela falta de mão-de-obra) vai acabar sendo suprido por terceirizações de verdade – consultorias ou fornecedores que substituirão funcionários permanentes. Percebe-se isso já em alguns mercados e essa tendência deve se fortalecer nos próximos meses. Esse outsourcing, inclusive, não precisa ser de uma empresa brasileira. Os fornecedores podem vir de outros países, já que neste segmento a língua local não é exatamente uma barreira e boa parte do serviço pode ser executada via internet. Há muitos argentinos e chilenos, por exemplo, realizando tarefas à distância e com salários menores que os pagos aos brasileiros. Trata-se, no entanto, de uma solução paliativa, que pode ser interrompida caso as economias destes países consigam se recuperar.

No caso dos Estados Unidos, por outro lado, é de se esperar um forte processo de automação nessas vagas de baixa qualificação. Já existem restaurantes que operam sem garçons tradicionais – os pedidos são feitos diretamente em tablets, que se comunicam com a cozinha. A presença humana surge apenas na hora de entregar os pratos. São poucos os estabelecimentos que oferecem esse sistema de atendimento – mas é de se esperar que as redes de fast-food entrem pesadamente na automação, seguindo o exemplo de muitas lojas do McDonald’s, nas quais os quiosques eletrônicos já fazem 80 % do atendimento antes executado por pessoas.

Não deixa de ser curioso. Os indivíduos estão se tornando mais seletivos e esnobando certas vagas. O resultado pode ser a extinção destes empregos – e o nascedouro de um mercado mais exigente, que descarte aqueles que hoje estão se fazendo de difíceis. Trata-se de um perigo em potencial, pois isso gerar um grande número de desempregados, minando o desenvolvimento econômico do Brasil e dos Estados Unidos.

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