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Conheça o supercomunismo de luxo dos boomers

Instituto Mises
17 de janeiro de 2026
O sistema de benefícios obrigatórios dos EUA mudará em uma década — se não antes. O dinheiro está acabando, por isso a conta deve ser paga pela Geração Z e Millennials

Nota da edição

Nascidos entre 1946 e 1964, a geração baby boomer no geral cresceu em um período de expansão econômica com custo de vida baixo. Apesar do cenário ter mudado bastante quase oitenta anos depois, muitos boomers nos EUA ainda se beneficiam de privilégios construídos artificialmente pela intervenção estatal às custas de gerações mais novas que não conseguem obter conquistas importantes como comprar uma casa própria ou reduzir as dívidas estudantis. Nesse contexto, o autor do artigo avalia o peso desses privilégios, que classificou como “supercomunismo de luxo”, e como eles prejudicam o funcionamento da economia. O debate é interessante para o leitor brasileiro principalmente por causa do tema previdenciário e da situação econômica calamitosa enfrentada pelas gerações mais novas.


Por cerca de meio século, a Direita tem debatido o chamado “fundamentalismo do livre mercado”. Esse fenômeno também é conhecido como “reaganismo zumbi”, “neoconservadorismo libertário” e “neoliberalismo”. Seja qual for o nome, isso nunca aconteceu de fato. Ou seja, a redução dos gastos públicos e do tamanho do governo que os reaganistas prometeram — e que os esquerdistas temiam — acabou se revelando uma miragem. O que ocorreu, em vez disso, foi que, a partir da década de 1980, ambos os partidos colocaram o país em uma trajetória rumo ao Supercomunismo de Luxo dos Boomers (SCLB).

O SCLB está impulsionando todos os aspectos do declínio americano — desde a disparada da dívida nacional e a erosão da base industrial de defesa até o desespero dos jovens. Certamente, ele não é a única causa desse declínio, mas constitui uma parte central do problema. Ainda assim, o SCLB foi completamente escondido da percepção pública.

A essência do SCLB é que ele redistribui riqueza de famílias e trabalhadores mais jovens para os idosos, que, em média, são muito mais ricos. A América teria alcançado o paraíso marxista de caçar pela manhã, pescar à tarde, cuidar do gado à noite e criticar depois do jantar. Só que, na prática, isso se parece muito mais com jogar golfe pela manhã, andar a cavalo à tarde, tomar drinques no clube à noite e dormir tranquilamente em uma casa de um milhão de dólares — tudo graças à generosidade do governo dos Estados Unidos.

Há algum tempo tornou-se comum ver memes gerados por IA sobre como a vida teria sido muito mais fácil para os Boomers. “Meu pai morava em uma casa de quatro quartos com o salário de um minerador de carvão. Mas eu fiz faculdade e não consigo pagar um Ifood”. A velha Direita costuma responder a esse tipo de afirmação com alguns dados sobre crescimento econômico e renda mediana. Às vezes, eles se perguntam em voz alta: por que esses jovens não valorizam aquilo que o movimento conservador preservou? Há um núcleo de verdade nisso. Basta olhar para o Canadá se você quiser ter um vislumbre de como seria uma América sem um movimento conservador.Com muita frequência, porém, os defensores do movimento conservador partem do pressuposto de que os Estados Unidos preservaram um sistema de livre mercado e um governo constitucional ao longo da era da Guerra Fria. Normalmente, nossa situação é comparada ao controle centralizado do Partido Comunista Chinês. Se essa comparação for precisa, no entanto, é difícil enxergá-la nos dados. Em seu livro Breakneck, Dan Wang observa:

“Quase três quartos da população chinesa estão isentos de pagar imposto de renda(…). Impostos baixos tornam a China parcimoniosa em bem-estar social. Cerca de 10% do seu PIB é destinado a gastos sociais, em comparação com 20% nos Estados Unidos e 30% entre os estados europeus mais generosos. Os gastos da China com pensões e saúde são muito menores do que os de outros países ricos”.

Na verdade, a comparação feita por Wang subestima o quanto o governo americano redistribui riqueza em relação à China. A América é, em termos per capita, três vezes mais rica do que a China. Assim, os Estados Unidos gastam pelo menos seis vezes mais por pessoa em programas sociais do que a China — e a maior parte desse gasto é destinada aos idosos.

Impostos diretos e benefícios sociais por idade | Eixo Y à esquerda: gasto/valor recebido por pessoa em 2021 em dólares; Eixo Y à direita (cores de cima para baixo): Impostos estaduais, Imposto da folha de pagamento, Imposto de renda, Previdência Social, Benefícios de saúde, Outros benefícios | Eixo X: Faixas de idade da população, é possível notar que os mais novos pagam mais impostos enquanto os mais velhos recebem o maior valor em benefícios | Fonte: Chris Pope, para o Manhattan Institute.

Há seis vezes mais redistribuição de riqueza ocorrendo nos Estados Unidos do que na China. Esse é o “comunismo”, mas apenas para os Boomers. A parte do “luxo” está na forma como o governo distribui esses benefícios.

De maneira perversa, milionários aposentados tornaram-se os maiores beneficiários da ajuda governamental. Os benefícios máximos da Previdência Social nos Estados Unidos são três a quatro vezes maiores do que aquilo que idosos podem esperar receber em outros países desenvolvidos, como Reino Unido, Canadá e Nova Zelândia. Esses benefícios são calculados com base na renda ao longo da vida, de modo que os maiores pagamentos da Previdência vão para indivíduos ricos, justamente aqueles que menos precisam deles.

Um indivíduo pode receber mais de US$ 60.000 por ano apenas da Previdência Social. Enquanto isso, programas do Medicare estão pagando por bolas de golfe, taxas de campos, mensalidades de clubes sociais, aulas de equitação e ração para animais de estimação. Em média, os aposentados são muito mais ricos do que as gerações mais jovens.

O crescimento metastático do governo federal americano ocorreu em grande medida sem deliberação do Congresso ou mesmo sem atenção do público. Por um breve período, em 2013, comentaristas centristas e de centro-esquerda da grande mídia admitiram que todo o orçamento federal estava enviesado contra os jovens. Na era Trump, porém, esse fato foi apagado da memória coletiva, e os progressistas passaram a falar, em vez disso, sobre aumentar os gastos com a Previdência Social em dezenas de trilhões de dólares.

Os fatos concretos sobre distribuição e redistribuição de renda convivem de forma desconfortável com nossas percepções populares de polarização política. Quase três quartos dos gastos federais dos Estados Unidos seguem em “piloto automático”, sem revisão pelo Congresso. Comentadores frequentemente lamentam o quanto os americanos supostamente estariam divididos. Mas isso é verdade? Sobre qual porcentagem do orçamento federal os dois partidos realmente brigam? Ao que tudo indica, apenas cerca de 15%. O último ano em que a maioria do orçamento federal foi destinada aos chamados gastos discricionários, que o Congresso de fato analisa, foi 1974.

Em outras palavras, democratas e republicanos concordam em pelo menos 85% dos gastos federais, principalmente porque ambos apoiam uma transferência maciça de riqueza dos trabalhadores jovens para os idosos. Não existe debate político — no Congresso, nem mesmo online até recentemente — sobre o Supercomunismo de Luxo dos Boomers.

As economias europeias são menos robustas, de modo que já tiveram de enfrentar essas verdades. O chanceler da Alemanha declarou que seu estado de bem-estar social “não pode mais ser financiado”. A França tem estado envolvida em uma intensa disputa política sobre o aumento da idade de aposentadoria. Na América, porém, nossos políticos agem como se fosse possível financiar um estado de aposentadoria cada vez mais generoso, apesar de gastos militares muito mais elevados, uma população envelhecida, taxas de fertilidade em queda acentuada, crescimento econômico estagnado e US$ 38 trilhões em dívida nacional.

A última grande reforma da Previdência Social ocorreu quando o presidente Ronald Reagan sancionou as Emendas da Previdência Social de 1983. Essa legislação salvou a Previdência Social da insolvência iminente ao elevar a idade de aposentadoria, desacelerar o crescimento dos benefícios e aumentar impostos. Desde então, os políticos americanos permitiram que a Previdência Social crescesse em piloto automático. Nova Zelândia, Canadá, Alemanha e Suécia reformaram suas versões de seguridade social nesse período. Os Estados Unidos não.

Como resumiu Avery James: “Os sucessores de Reagan falharam em controlar a elevação maciça dos pagamentos do governo aos idosos, criando uma poderosa clientela de notáveis para afastar os partidos e a política do país do debate sobre um governo menor ou maior”. O Partido Republicano de fato traiu o legado de Reagan, mas esse processo começou muito antes de 2016. Grande parte do debate interno cansativo da direita, mencionado acima, confunde Reagan com seus sucessores do partido.

Hoje, a maioria dos americanos não faz ideia de como seus impostos são gastos. Por exemplo, 91% não sabem que os benefícios da Previdência Social podem ultrapassar US$ 60.000 por pessoa anualmente. Eles não sabem que um domicílio de idosos pode receber quase US$ 117.000 por ano apenas da Previdência Social. E, se você disser às pessoas que programas do Medicare cobrem bolas de golfe, taxas de campos, clubes sociais, viagens de esqui e aulas de equitação, elas ficam olhando em incredulidade.

A Geração Z e os Millennials podem ignorar os gastos sociais massivos dos Estados Unidos porque, em grande medida, eles não se beneficiam disso. Eles apenas pagam a conta. Como explicado por Chris Pope, “Os benefícios obrigatórios cada vez mais caros dos Estados Unidos para aposentados de classe média resultam em uma redistribuição substancial que se afasta dos trabalhadores jovens”.

Essa injustiça geracional é agravada ao menos quatro vezes:

  1. O governo tributa os jovens e transfere sua riqueza para os idosos.
  2. O governo contrai ainda mais dívida para transferir mais riqueza aos idosos.
  3. A dívida pública provoca inflação e desacelera o crescimento econômico, corroendo a renda dos jovens ao longo de toda a vida.
  4. O governo tributa novamente os jovens para pagar a dívida contraída a fim de financiar os benefícios destinados aos idosos.

Como observado recentemente por Peter Thiel:

“Os Boomers são estranhamente pouco curiosos sobre como isso, na prática, não está funcionando para seus filhos(…). Se tudo o que você consegue dizer é que Mamdani é um jovem jihadista, comunista e ridículo, o que isso me soa é que você ainda não tem a menor ideia do que fazer em relação à moradia ou à dívida estudantil. Se isso é o melhor que você consegue fazer, você continuará perdendo”.

Para ilustrar o ponto de Thiel com apenas um entre muitos exemplos centrais: o debate sobre os custos da moradia frequentemente ignora completamente o custo do Supercomunismo de Luxo dos Boomers, concentrando-se exclusivamente nas restrições de oferta. Sim, é verdade que, quando regulações governamentais e regras de zoneamento restringem a oferta de moradias e a demanda aumenta em razão do crescimento populacional, os preços sobem. Mas as políticas do nosso país são fortemente enviesadas para manter os idosos em casas mais espaçosas e mais próximas de grandes centros de emprego do que seriam naturalmente.

Considere o mercado imobiliário para jovens em Washington, D.C. O salário mediano de um assistente de gabinete na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos é de US$ 55.891 por ano. Secretários-adjuntos de imprensa ganham um pouco mais, cerca de US$ 67.541. Enquanto isso, a capital do país ocupa a 10ª posição entre as grandes cidades mais caras dos Estados Unidos, exigindo mais de US$ 78.000 por ano apenas para cobrir necessidades básicas. Para viver uma vida minimamente confortável, o custo é cerca do dobro disso — o preço médio de uma casa para uma família ultrapassa US$ 749.000. Além disso, muitas das casas em Washington, D.C. vendidas por menos de um milhão de dólares estão localizadas em áreas com altos índices de criminalidade e não são adequadas para jovens que desejam formar uma família.

O chamado Ward 3 do Distrito, em contraste, é bonito e relativamente seguro. Suas ruas arborizadas e quintais acolhedores lhe conferem uma atmosfera calma, quase suburbana, embora ainda esteja próximo o suficiente para um deslocamento diário razoável até os principais empregadores da cidade. No entanto, há muito tempo é política oficial do governo dos Estados Unidos ajudar aposentados a permanecerem nessas casas pelo maior tempo possível. Por exemplo, Washington, D.C., abriga as chamadas NORCs (naturally occurring retirement communities), ou comunidades de aposentados que surgem naturalmente, também conhecidas como vilas de idosos. Transformamos imóveis de alto valor destinados a famílias jovens em casas de repouso caminháveis.

Na realidade, as NORCs estão longe de “surgirem naturalmente”. O Supercomunismo de Luxo dos Boomers ajuda esses idosos a permanecerem em casas espaçosas por muito mais tempo do que permaneceriam de outra forma. Como ocorre em quase todo o país, Washington, D.C., oferece benefícios fiscais especiais para proprietários idosos. Isso os incentiva a permanecerem em suas casas, apesar dos quartos sobrando, em vez de reduzir o tamanho do imóvel e vendê-lo para famílias mais jovens. Praticamente todos os estados possuem subsídios especiais para proprietários idosos, desde isenções e congelamentos até adiamentos de impostos, para ajudá-los a permanecer onde estão.

E a situação fica ainda pior. O Medicaid para cuidados de longo prazo exclui até US$ 1.097.000 em patrimônio imobiliário dos critérios de comprovação de renda. Além disso, o departamento do governo federal para moradia (chamada de Federal Housing Authorityoferece a americanos com 62 anos ou mais uma modalidade especial de hipoteca reversa (conhecida como Home Equity Conversion Mortgage), que permite converter o valor do imóvel em dinheiro sem pagamentos mensais adicionais. Muitas vezes, isso transfere o ônus para os herdeiros.

Se não reformarmos radicalmente o regime de benefícios obrigatórios dos Estados Unidos, toda a nação se tornará uma comunidade de aposentados que surge “naturalmente”.

O Supercomunismo de Luxo dos Boomers está enredando o país em uma teia de contradições. A América passou a depender de um fluxo constante de novos trabalhadores para financiar benefícios cada vez mais generosos destinados aos idosos. Mas, ao mesmo tempo, paga pessoas para não trabalharem e desestimula a formação de famílias. O sistema está em guerra consigo mesmo.

O sistema de benefícios obrigatórios dos Estados Unidos mudará radicalmente dentro de uma década — se não antes. O dinheiro está acabando. A única questão é quem arcará com o peso. A cada dia que passa, a Geração Z e os Millennials pagam um preço cada vez maior pela irresponsabilidade dos Boomers.

Aristóteles nos lembra que as revoluções ocorrem quando há uma distribuição injusta das honras, dos cargos e dos privilégios da cidadania. Não é hora de uma revolução, mas de uma reavaliação de como nós, enquanto nação, distribuímos esses encargos e privilégios. Só poderemos corrigir o Supercomunismo de Luxo dos Boomers quando o reconhecermos pelo que ele realmente é.

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Por Russ Greene 

Publicado originalmente

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