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Cloroquina: o dilema de Mandetta

Conforme avançam os estudos sobre a cloroquina, há uma mudança visível no tom do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, sobre a droga que combate a malária e outras doenças autoimunes. Pode-se dizer que ministro saiu da total incredulidade para uma certa tolerância à discussão do tema. Esse comportamento deve-se à insistência do presidente Jair Bolsonaro? Há evidências científicas que comprovam os benefícios deste medicamento? O ministro resolveu agir com pragmatismo?

No front científico, os lados a favor e contra continuam brigando.

Um estudo recente da Fiocruz apresentou ceticismo em relação à droga (o alvo, neste caso, foi um grupo de pacientes em estado grave). No entanto, procedimento feito na rede Prevent Senior parece mostrar bons prognósticos (ministrado em estágios iniciais). Ocorre que médicos ainda estão preocupados com os efeitos colaterais, especialmente a arritmia, que pode acometer cardiopatas. Por outro lado, defensores da cloroquina argumentam que ela está no mercado há setenta anos e até recentemente foi vendida sem receita médica – um indicativo que as adversidades geradas pela fórmula são limitadas.

Com quem está a razão? Com aqueles que argumentam ser este um momento semelhante a uma guerra e, portanto, medidas extremas, como o uso da cloroquina sem os devidos testes, devem ser tomadas? Ou com os que defendem mais exames e testes para liberar o uso específico no combate ao coronavírus para preservar vidas que podem ser perdidas enquanto não há segurança absoluta?

Na cabeça de Mandetta e de sua equipe, há uma pergunta que martela há pelo menos três dias: se a cloroquina é uma solução, então todo o sacrifício econômico que se impôs ao país foi inútil?

Alguns médicos também questionam se a população brasileira não teria maior capacidade imunológica por conta da obrigatoriedade da BCG, que combate a tuberculose. Quando comparada a curva de contágio dos Estados Unidos e Itália (onde essa vacina não é obrigatória) com a brasileira, percebe-se números menores em nosso território. Isso seria um indicativo de que haveria nesta fórmula algo que melhoraria nossa imunização? Seria. Só que a BCG também é mandatória em países como França e Espanha, onde a contaminação bateu recordes.

Como se pode ver, há estudos ou evidências que podem corroborar praticamente qualquer argumento numa discussão sobre o coronavírus. Mas uma questão permanece sobre todas: o sofrimento imposto à economia é justo?

Vamos supor que a cloroquina seja uma solução completa para o problema, com eficácia no combate à moléstia e na redução do tempo de internação e uso de ventiladores. Isso, teoricamente, mostraria que o sacrifício econômico teria sido em vão. Mas Mandetta teria condições de enxergar isso quando aderiu ao isolamento social profundo? De jeito nenhum. O ministro tomou decisões baseado nas informações que tinha no momento — e a eficácia deste medicamento ainda nem tinha sido levantada.

Estamos entrando na terceira semana de crise. Neste período, os caminhos não estão ainda claros – mas já se pode enxergar pelo menos as direções que podem ser seguidas. A mudança de tom do ministro em relação à droga antimalárica mostra que não se pode descartar nenhuma trilha. Mas que cuidados devem ser tomados. Há indicações de arritmia no tratamento? Muito bem. Que se mitigue essa possibilidade. Mas que não se feche nenhuma porta. Estamos em guerra e o inimigo ganha quando nossa intransigência cresce mais do que nossa razão.

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