De acordo com as atas da reunião do Federal Reserve, a maioria das autoridades considerou que taxas de juros mais altas poderiam se tornar necessárias para combater uma retomada da inflação. Segundo as atas, a maioria dos participantes destacou que “algum aperto na política monetária” provavelmente se tornaria apropriado caso a inflação continuasse a se manter persistentemente acima da meta de 2% do Fed.
Mas será que uma postura de juros mais altos combateria a inflação? A chave aqui está na definição de inflação.
Definindo a inflação
Para formular uma definição, é útil voltar, se possível, ao momento em que o objeto de investigação surgiu. Historicamente, a inflação teve origem quando o governante de um país, como o rei, forçava seus cidadãos a lhe entregarem todas as suas moedas de ouro sob o pretexto de que uma nova moeda de ouro substituiria a antiga. No processo, o rei falsificava o conteúdo das moedas de ouro, misturando-o com algum outro metal, e devolvia aos cidadãos moedas de ouro diluídas. Sobre isso, Rothbard escreveu,
Nesta operação, a Casa da Moeda derretia e recunhava todas as moedas do reino, devolvendo aos súditos o mesmo número de “libras” ou “marcos”, mas agora com uma massa menor. Os refugos de ouro e prata que sobravam deste processo eram fundidos em novas moedas, as quais eram embolsadas pelo rei e utilizadas para pagar suas despesas.
Por causa da diluição das moedas de ouro, o governante podia agora cunhar um número maior de moedas e embolsar para uso próprio as moedas extras cunhadas. O que agora circulava como moeda de ouro puro era, na verdade, uma moeda de liga de ouro. O aumento artificial no número de moedas (isto é, na oferta de moeda) provocado por essa desvalorização das moedas de ouro é do que se trata a inflação — aumentos artificiais na oferta de moeda. O objeto da inflação é a apropriação indevida. Sobre isso, Mises escreveu,
Para evitar serem culpados pelas consequências nefastas da inflação, o governo e seus asseclas recorrem a um truque semântico. Eles tentam mudar o significado dos termos. Chamam de “inflação” a consequência inevitável da inflação, ou seja, a alta dos preços. Eles se empenham em relegar ao esquecimento o fato de que essa alta é produzida por um aumento na quantidade de moeda e substitutos da moeda. Nunca mencionam esse aumento. Colocam a responsabilidade pelo aumento do custo de vida sobre as empresas.
De acordo com grande parte do pensamento popular, no entanto, a inflação diz respeito a aumentos nos preços de bens e serviços, tal como retratado pelos índice de preços ao consumidor (IPC). Nesse modo de pensar, um aumento na demanda por bens e serviços, para uma dada oferta, provoca aumentos gerais no IPC. Logo, por essa lógica, uma queda na demanda para uma dada oferta reduzirá os aumentos no IPC. Nesse arcabouço, um aumento nas taxas de juros provavelmente enfraquecerá a demanda e, consequentemente, enfraquecerá a taxa de inflação tal como descrita pelo IPC.
Inflação: a troca de nada por algo
Por meio da moeda, os indivíduos trocam bens e serviços por moeda e, em seguida, a moeda é trocada por outros bens e serviços. Isso significa que algo é trocado por outra coisa — uma troca voluntária, de valor por valor.
Quando a moeda surge por meio da inflação e é empregada no comércio, nada é trocado por ela. Quando a moeda inflacionada é trocada por bens e serviços, temos uma situação em que nenhum bem ou serviço é trocado por bens e serviços — ou seja, nada é trocado por algo.
É o mesmo resultado quando o falsificador usa a moeda falsa para obter bens e serviços. O falsificador não produziu nenhum bem ou serviço. Tudo o que ele produziu foi a moeda falsa, que ele pode empregar para desviar para si bens e serviços de indivíduos que de fato os produziram.
Juros altos não conseguem resolver o problema
Pode uma postura de juros mais altos por parte do banco central desfazer o dano da política anterior de juros baixos? Não, a má alocação de recursos resultante da política de juros baixos não pode ser revertida por uma postura mais restritiva. Uma postura de juros mais restritiva — embora provavelmente prejudique atividades que surgiram na esteira dos aumentos inflacionários da oferta de moeda — também tende a gerar diversas distorções, causando assim dano aos geradores de riqueza.
Uma postura mais restritiva ainda é intervenção por parte do banco central e, nesse sentido, não resulta na alocação de recursos em conformidade com as prioridades dos consumidores. Segundo Percy L. Greaves,
Mises também se refere ao fato de que a deflação nunca pode reparar o dano de uma inflação anterior. Em seu seminário, ele frequentemente comparava tal processo a um motorista de automóvel que havia atropelado uma pessoa e depois tentava remediar a situação passando por cima da vítima novamente, em marcha à ré. A inflação embaralha de tal modo as mudanças na riqueza e na renda que se torna impossível desfazer os efeitos. Além disso, as manipulações deflacionárias da quantidade de moeda são tão destrutivas dos processos de mercado, guiados por preços, salários e taxas de juros desimpedidos, quanto o são tais manipulações inflacionárias da quantidade de moeda.
Política de juros altos versus o fechamento das brechas monetárias
Contrastemos uma política de juros altos para combater aumentos gerais de preços, erroneamente rotulados de “inflação”, com uma política que feche as brechas da expansão da oferta de moeda. (Por exemplo, proibir o banco central de comprar ativos e, assim, expandir seu balanço.) A política de conter os aumentos da oferta de moeda prejudicará bolhas (isto é, atividades que surgiram dos aumentos anteriores da oferta de moeda), porque ela cessará o desvio de riqueza dos geradores de riqueza para a bolha.
Tal política é uma ótima notícia para os geradores de riqueza, já que agora menos riqueza lhes é tomada. Isso, por sua vez, provavelmente resultará na expansão da riqueza produtiva. Essa expansão, por sua vez, tende a encurtar o período de recessão econômica e também a torná-la menos severa. Ao empregar uma definição errônea de inflação, os formuladores de política do Fed acabam atacando os sintomas em vez das causas da inflação. Como resultado, estão piorando muito as coisas.
Conclusão
Uma postura de juros mais altos por parte do banco central causa dano não apenas às bolhas, mas também às atividades geradoras de riqueza. Isso apenas prolonga uma recessão econômica. Se o banco central se concentrasse na verdadeira inflação, que são os aumentos na oferta de moeda, os efeitos de conter a taxa de crescimento monetário seriam a eliminação das bolhas e o fortalecimento dos produtores de riqueza. Consequentemente, isso tende a encurtar o período da recessão e também a torná-la mais branda.
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Por Frank Shostak
Publicação original
