Modelo chinês integra QR Codes, inteligência artificial e superapps para tornar o pagamento quase invisível — tendência que pode redesenhar o varejo brasileiro
O Pix transformou a forma como os brasileiros transferem dinheiro e pagam por produtos e serviços. Na China, porém, a evolução dos meios de pagamento já avança para outra direção: fazer com que o consumidor quase não perceba o momento em que a transação acontece.
No país asiático, carteiras digitais, QR Codes, inteligência artificial, reconhecimento facial e superapps estão cada vez mais integrados à jornada de compra. Em vez de escolher entre dinheiro, cartão ou aplicativo, o consumidor realiza a compra dentro de uma plataforma que reúne pagamentos, transporte, delivery, comércio eletrônico, programas de fidelidade e serviços financeiros.
Segundo levantamento da Mordor Intelligence, as carteiras digitais responderam por 72,05% das transações realizadas na China em 2025. O avanço é impulsionado principalmente pela ampla presença de QR Codes e pela popularidade de plataformas como Alipay e WeChat Pay.
O varejo concentra 45,18% do mercado chinês de pagamentos, indicando que a transformação ocorre principalmente nas compras cotidianas. Dados da Statista também mostram que mais da metade da população utiliza pagamentos móveis regularmente e que Alipay e WeChat Pay estão presentes na rotina de cerca de nove em cada dez consumidores que fazem transações digitais.
Para Marlon Tseng, CEO da fintech global Pagsmile, o diferencial da China não está apenas no uso de novas tecnologias, mas na integração entre elas.
“O consumidor não escolhe entre cartão, carteira digital ou QR Code, ele simplesmente compra. O pagamento acontece de forma integrada à experiência”, afirma.
Segundo o executivo, durante anos, a inovação no setor esteve concentrada na criação de novas formas de pagamento. Agora, o desafio é reduzir etapas e fazer com que a transação deixe de ser percebida como uma parte separada da compra.
Superapps concentram serviços
Na prática, plataformas como Alipay e WeChat funcionam como ecossistemas digitais. Dentro de um mesmo aplicativo, o usuário pode pagar contas, pedir comida, chamar um carro, comprar produtos, acumular benefícios e contratar serviços financeiros.
Essa concentração reduz o número de telas, cadastros e confirmações necessários para concluir uma compra. Também permite que bancos, fintechs, varejistas e empresas de tecnologia compartilhem uma mesma infraestrutura de serviços.
Para Tseng, o modelo chinês sinaliza uma tendência global de aproximação entre pagamentos, identidade digital, inteligência artificial e programas de relacionamento.
Brasil pode avançar além do Pix
O Brasil já ocupa posição de destaque no mercado de pagamentos instantâneos, principalmente após a consolidação do Pix. O próximo passo, no entanto, pode estar menos na criação de um novo meio de pagamento e mais na integração das ferramentas que já existem.
A expectativa é que pagamentos, varejo, serviços financeiros e programas de fidelidade passem a funcionar de forma cada vez mais conectada. Nesse cenário, a vantagem competitiva não estará apenas na variedade de opções disponíveis, mas na capacidade de eliminar atritos.
“A China costuma antecipar tendências que depois se espalham pelo mundo. O aprendizado está em entender que a vantagem não estará apenas em oferecer diferentes meios de pagamento, mas em tornar a experiência mais natural”, diz Tseng.
Embora diferenças regulatórias e culturais impeçam a simples reprodução do modelo chinês, o avanço dos superapps mostra que o futuro dos pagamentos pode estar justamente em sua invisibilidade. Quanto menos o consumidor precisar pensar em como pagar, mais integrada será a experiência de compra.
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