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Como a IA está influenciando os processos de contratação e o impacto no mercado de trabalho

André Freire,
para MR
14 de agosto de 2026

A inteligência artificial já começou a mudar o mercado de trabalho. Mas talvez estejamos prestando atenção demais à pergunta errada. A discussão costuma girar em torno de quais profissões desaparecerão, quantos empregos serão substituídos e quais novas funções surgirão. São questões relevantes. Mas, para quem acompanha de perto como eu os processos de contratação e decisões de carreira, existe uma transformação menos visível acontecendo agora: a IA está mudando a forma como empresas e candidatos se encontram, se avaliam e, principalmente, tentam se diferenciar.

Nos processos de recrutamento, os ganhos são evidentes. Ferramentas de inteligência artificial conseguem mapear mercados, cruzar informações, identificar profissionais, organizar grandes volumes de dados, montar relatórios de perfil e apoiar análises em uma velocidade que seria impensável poucos anos atrás. Atividades que consumiam horas de trabalho podem ser realizadas em minutos. Isso é positivo, mas eficiência e qualidade de decisão não são necessariamente a mesma coisa.

Do outro lado da mesa, o candidato também passou a contar com as mesmas ferramentas. Hoje é relativamente simples construir um currículo muito bem escrito, adaptar uma apresentação à descrição de uma posição, pesquisar profundamente uma empresa e seus entrevistadores, antecipar perguntas e até simular entrevistas antes de um processo seletivo. Em outras palavras, a IA está elevando a qualidade média da embalagem, e aí surge um problema interessante: se todos conseguem se apresentar melhor, como identificar quem é realmente melhor?

Esse fenômeno tende a ser ainda mais relevante na contratação de executivos. Em posições de liderança, raramente buscamos alguém apenas porque domina determinada competência técnica. Queremos entender como aquela pessoa pensa, quais decisões tomou quando não tinha todas as informações, como reage sob pressão, que riscos assumiu, onde errou, como mobiliza pessoas e qual impacto efetivamente deixou nas organizações pelas quais passou. Nenhuma dessas respostas está facilmente disponível em um currículo — por melhor que ele tenha sido produzido. Por isso, acredito que veremos uma aparente contradição nos próximos anos: quanto mais tecnologia houver nos processos de seleção, maior será a importância da capacidade humana de avaliar pessoas.

Não se trata de defender processos de recrutamento menos tecnológicos. Seria um erro. A IA pode aumentar brutalmente a produtividade e a qualidade de várias etapas. A questão está em entender onde termina a capacidade da ferramenta e onde começa o julgamento. Um algoritmo pode identificar que dois executivos possuem experiências semelhantes. É muito mais difícil determinar qual deles terá sucesso em uma empresa familiar passando por uma sucessão, em uma multinacional pressionada por resultados trimestrais ou em uma companhia tentando reconstruir sua cultura depois de uma transformação profunda.

Essa mudança terá consequências para o próprio mercado de trabalho. O profissional que simplesmente executa bem determinadas tarefas estará cada vez mais exposto à automação. Isso não significa necessariamente o desaparecimento de sua profissão, mas certamente significa uma revisão do valor atribuído a determinadas atividades. A Organização Internacional do Trabalho estima que um em cada quatro trabalhadores no mundo está em uma ocupação com algum grau de exposição à inteligência artificial generativa. A conclusão mais relevante, porém, é que a transformação das funções tende a ser muito maior do que sua simples eliminação.

O Fórum Econômico Mundial aponta na mesma direção. Até 2030, quase 40% das competências utilizadas atualmente no trabalho deverão mudar. Ao mesmo tempo em que cresce a demanda por conhecimentos ligados à inteligência artificial, dados e tecnologia, permanecem relevantes competências como pensamento analítico, criatividade, resiliência, liderança e colaboração. Não vejo isso como coincidência.

Quando o acesso à informação deixa de ser escasso, saber o que perguntar torna-se mais importante. Quando produzir uma análise básica se torna barato, interpretar suas implicações ganha valor. Quando qualquer profissional consegue elaborar uma apresentação impecável, aumenta a importância de saber distinguir clareza de pensamento de qualidade estética. Talvez este seja um dos efeitos mais interessantes da IA sobre o trabalho: algumas competências que durante anos chamamos de “soft skills” podem se tornar justamente as mais difíceis de substituir e isso também muda a responsabilidade das empresas.

Se continuarmos selecionando pessoas principalmente pela qualidade do currículo, pela fluência na entrevista ou pela capacidade de apresentar respostas bem estruturadas, correremos o risco de aperfeiçoar tecnologicamente um processo que já tinha limitações. Será necessário aprofundar entrevistas, explorar decisões reais, testar hipóteses, verificar referências e observar não apenas as respostas dos candidatos, mas a qualidade das perguntas que fazem.

Também será necessário rever uma premissa confortável: experiência acumulada não será garantia de relevância futura. Um executivo com trinta anos de carreira pode estar menos preparado para os próximos cinco do que outro com metade desse tempo. O que fará diferença será a capacidade de aprender, desaprender e incorporar novas ferramentas sem terceirizar para elas o próprio pensamento.

De um lado estarão profissionais que utilizarão inteligência artificial para pensar melhor, decidir melhor e produzir mais. De outro, aqueles que passarão a depender dela para fazer aquilo que antes deveriam saber fazer sozinhos. E talvez esse seja também o novo desafio de quem contrata: descobrir quem está usando a inteligência artificial para ampliar sua capacidade — e quem está apenas usando a tecnologia para esconder suas limitações.

A tecnologia tornará essa distinção mais difícil e, justamente por isso, muito mais valiosa.

André Freire é sócio-diretor da EXEC, consultoria especializada na seleção e desenvolvimento de altos executivos e conselheiros

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Comentários

Uma resposta

  1. Excelente reflexão, André …
    O ponto central é certeiro, quando a IA nivela a qualidade da embalagem, o diferencial deixa de ser apresentar bem e passa a ser pensar bem.
    Quem contrata precisará ir além do currículo e da fluência da entrevista, buscando evidências de decisões reais, julgamento e caráter, exatamente o que nenhuma ferramenta consegue embalar.
    O desafio deixa de ser técnico e volta a ser humano.
    Abração!

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