Casos reais de crise empresarial ajudam a alimentar posts enganosos sobre Lupo, Electrolux, Domino’s e Nestlé
Uma fábrica fecha na Hungria, outra encerra atividades no Chile e uma empresa brasileira inaugura uma unidade no Paraguai. Nas redes sociais, porém, os episódios ganham outro endereço: o Brasil.
Nos últimos dias, uma série de publicações falsas ou enganosas passou a retratar empresas como Lupo, Electrolux, Domino’s e Nestlé como vítimas de uma suposta onda de fechamentos, demissões ou fuga do país.
A desinformação aparece em um momento particularmente fértil para esse tipo de narrativa. Mais de 6,3 mil empresas estavam em recuperação judicial no Brasil no primeiro semestre de 2026. Em agosto, alguns dos casos mais conhecidos do país voltaram às manchetes.
A Casas Bahia pediu recuperação judicial em 16 de agosto, envolvendo cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas. Dias depois, o Grupo Gennius, controlador de Habib’s e Ragazzo, também entrou em recuperação judicial, com dívida declarada de R$ 265,2 milhões.
Na terça-feira (25), a Justiça voltou a decretar a falência da Oi, depois de anos de dificuldades financeiras e duas recuperações judiciais. Nesta sexta-feira (28), a Justiça aceitou ainda o pedido de recuperação extrajudicial da Braskem, que busca reorganizar cerca de US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras.
Há também movimentos reais de saída. A Häagen-Dazs, por exemplo, deixará de ser distribuída no Brasil depois de quase 30 anos. A decisão ocorre após a General Mills vender sua operação brasileira, incluindo Yoki e Kitano, para a 3corações.
É nesse ambiente que informações verdadeiras, mas ocorridas em outros contextos, encontram terreno para virar desinformação.
O que é mentira
A Lupo não deixou o Brasil. A fabricante abriu uma unidade em Ciudad del Este, no Paraguai, em 2025, mas mantém quatro fábricas brasileiras. A operação paraguaia foi criada como parte de uma estratégia de expansão.
A Electrolux também não fechou fábricas nem anunciou 2,7 mil demissões no país. Os cortes e encerramentos citados nas redes dizem respeito a operações no Chile, na Hungria e na Itália.
Já as 29 lojas fechadas pela Domino’s ficam na Austrália e na Nova Zelândia. No Brasil, a empresa afirma que continua com planos de expansão.
A Nestlé completa a lista: as duas fábricas fechadas pela companhia ficam na Alemanha e na Hungria, enquanto o anúncio de 16 mil demissões integra uma reestruturação global. No Brasil, suas 18 unidades continuam funcionando e a companhia prevê investir R$ 7 bilhões no país até 2028.
O mecanismo é parecido em praticamente todos os casos. Em vez de criar uma mentira do zero, os posts aproveitam notícias verdadeiras sobre empresas em dificuldade, retiram a localização ou misturam episódios diferentes.
