A Fake News da Semana de MR não vem de uma publicação impulsionada em redes sociais, mas de um relatório do Congresso dos Estados Unidos que circula desde a semana anterior, mas só ganhou atenção nesta. Elaborado por deputados Democratas e Republicanos, o documento da Comissão Seleta da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos sobre Competição Estratégica entre os Estados Unidos e o Partido Comunista Chinês alerta para a criação na América Latina de uma rede de 11 bases a partir de onde os chineses poderiam poderiam monitorar o espaço e a alta atmosfera. A tecnologia teria potencial uso militar.
O receio é da perda da hegemonia militar na América do Sul, considerado parte da “esfera de influência” dos EUA. Duas dessas bases “secretas” – mas nem tanto – estão no Nordeste, nas cidadezinhas de Tucano, na Bahia, e Aguiar, na Paraíba. As instalações envolvem alta tecnologia – algumas sensíveis -, mas não parece existir nada de militar. A profundidade do relatório é de uma pesquisa preguiçosa de aluno do fundamental II.

A área mais sensível seria a Estação Terrestre de Tucano, criada em 2020, em pleno governo Bolsonaro, por meio de um convênio entre a startup brasileira Alya Nanossatélites e a Beijing Tianlian Space Technology – que não foi renovado, de acordo com o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), da Força Aérea Brasileira (FAB). Apesar de o relatório do Congresso dizer que a base é secreta e que funcionaria na capital, Salvador, as instalações ficam mesmo em Tucano (48 mil habitantes), a 270 quilômetros da capital, à beira da BR-116. A informação é pública.
A Alya Space nega qualquer segredo militar. Eles desenvolvem um projeto civil para “geração de imagens de alta resolução e dados analíticos aplicados a áreas como agricultura sustentável, resiliência climática, energia e gestão ambiental”, por meio de uma constelação de 216 pequenos satélites operando em órbita baixa da Terra. A FAB afirma que o convênio seria para “calibração radiométrica de sensores”. Os lançamentos devem ocorrer a partir da Base de Alcântara, no Maranhão.
Já na paraibana Aguiar (5,5 mil almas), na Serra do Urubu (imagem), está em montagem o radiotelescópio Bingo (acrônimo de Baryon Acoustic Oscillations from Integrated Neutral Gas Observations), projetado para fazer a primeira detecção de Oscilações Acústicas de Bárions (BAO) no continente. Se trata de uma tentativa de investigar os efeitos da energia escura no espaço. O equipamento também detectaria Rajadas Rápidas de Rádio (FRBs), fenômeno astrofísico.
A iniciativa é multinacional e conta com participações e financiamentos dos governos do Brasil, China, Reino Unido, Alemanha, França, Itália, Espanha, Coreia do Sul e África do Sul. Ou seja, tirando os chineses e os brasileiros, os demais são grandes aliados militares dos EUA.

A operação terá liderança de pesquisadores Universidade de São Paulo (USP), além da colaboração de profissionais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), das universidades federais de Campina Grande (UFCG), de Itajubá (Unifei), do Cariri (UFCA), e das universidades de Yangzhou, Shanghai Jiao Tong (China), Manchester, College London (Reino Unido), Roma La Sapienza (Itália), KwaZulu-Natal (África do Sul), além dos institutos Basic Science (Coreia do Sul), d’Astrophysique de Paris (França), de Astrofísica das Canárias (Espanha) e Max Planck (Alemanha). Os maiores financiadores são a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o governo da Paraíba. Difícil manter qualquer segredo militar com vaivém de tanta gente e dados digitais.
O radiotelescópio está em montagem por brasileiros (imagem ao alto). Duas grandes antenas vieram de navio desde a China, em junho do ano passado, e aos poucos são levadas para o sertão, onde o terreno é preparado (imagem ao lado). A escolha do local se deu pelo isolamento eletrônico. O relevo barra boa parte das ondas de rádio e sequer existem antenas de celular e rotas aéreas nas proximidades. Distante 423 km de João Pessoa, perto da divisa com o sudeste do Ceará, no meio da Caatinga, esse ponto cego facilita a captação de sinais do espaço, daí o esforço para instalar o equipamento.
Mesmo assim, o relatório é tão categórico quanto desprovido de evidências:
“Esses locais na América Latina são parte essencial da extensa rede de Defesa Espacial da República Popular da China, que fornece vigilância global quase contínua, apoia operações contraespaciais e permite o sistema de orientação terminal necessário para armamentos avançados.”
