O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu uma declaração nesta semana sobre o colega americano, Donald Trump, que foi publicada em todos os veículos de imprensa: “Eu posso dizer que, toda vez que eu converso com o Trump, eu me surpreendo. Porque, muitas vezes, você vê o Trump na televisão, muito nervoso. Na conversa pessoal, ele é outra pessoa. Eu fiz questão de dizer para ele, temos dois Trump: o da televisão e o da conversa pessoal”.
Trata-se de uma afirmação instigante. Será que somos assim também? Existe uma personalidade, por exemplo, para a vida pessoal e outra para a profissional? Ou uma conduta para amigos e outra para desconhecidos? Será que temos apenas uma persona ou duas? Ou três? Ou quatro?
Isso não tem a ver com múltipla personalidade ou esquizofrenia. São apenas facetas de uma só personalidade, que, dependendo do indivíduo, pode ser bastante complexa. Ou decorrentes dos níveis de autocontrole que uma pessoa possui. Há gente que é controlada ao excesso em público, mas explode com facilidade com a família. São comportamentos distintos, vindos de um só indivíduo.
Nesta semana, falei com um empresário da área social sobre a dificuldade de manter o ego em rédeas curtas quando há elogios em demasia vindos de interlocutores. Ele me disse que sua esposa ajuda a mantê-lo com os pés no chão. E como isso funciona?
Em um passado recente, várias reportagens sobre ele foram publicadas na imprensa. Este empresário, então, perguntou à mulher o que ela achava daquelas matérias. Ela respondeu que os textos eram sobre outra pessoa, não ele. “Como assim?”, ele retrucou. A mulher, então, disse que aquele não era o seu marido. O seu marido de verdade era o sujeito a quem ela mandava buscar a pizza na portaria do prédio.
Podemos observar esse fenômeno em diferentes situações. Um professor universitário, por exemplo, pode ser visto como rígido e exigente em sala de aula, mas se transforma em alguém descontraído e brincalhão quando está em uma roda de amigos. O mesmo indivíduo que defende com firmeza suas ideias diante de uma plateia é capaz de rir de si mesmo em um churrasco de domingo.
Outro caso é o de um atleta profissional. Dentro do campo, ele demonstra disciplina, foco e até certa agressividade competitiva. Fora dele, pode ser um pai carinhoso, paciente e disposto a passar horas montando um quebra-cabeça com os filhos. São facetas que convivem em harmonia, ainda que pareçam contraditórias.
Há também o exemplo de políticos que, em público, precisam manter a postura firme e a retórica afiada. No entanto, em conversas privadas, podem se mostrar vulneráveis, inseguros e até pedirem conselhos a pessoas próximas. O mesmo sujeito que parece inabalável diante das câmeras pode ser alguém que busca apoio emocional longe delas.
Esses exemplos mostram que não somos uma única pessoa o tempo todo. Somos múltiplos, mas não fragmentados. Somos complexos e isso apenas ressalta nossa humanidade. Como disse Fernando Pessoa, “cada um de nós é vários, é muitos, é uma prolixidade de si mesmos”.
E você? Acha que é apenas uma única pessoa? Ou várias?