Recentemente, o caso Master proporcionou a exposição de mensagens íntimas trocadas entre Daniel Vorcaro e sua ex-noiva. Tirando raríssimas exceções, todos (eu incluído) se divertiram com o conteúdo, passaram adiante memes e contaram piadas sobre o tema em roda de amigos. Virou o que os americanos chamam de “talk of the town” e gerou até comentários de autoridades, como o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal.
Temos uma curiosidade mórbida sobre qualquer coisa relacionada ao sexo, ainda mais quando temos pessoas famosas envolvidas. Mas há outro fator que serve de combustível para essa explosão coletiva de bisbilhotice: a satisfação de ver a humilhação pública de alguém que conseguiu produzir um rombo de R$ 52 bilhões, além de trazer prejuízos a fundos de previdência de aposentados espalhados por todo o país.
Há, no entanto, um efeito colateral nessa história: o vexame pelo qual passou ex-noiva, que se viu exposta pelas mensagens picantes. Muitos se divertiram com a situação, pois existe alguma dose de maldade habitando em todo o ser humano. Mas houve quem se aproveiou desta situação para desfiar comentários misóginos, como se todas as mulheres tivessem de ser exemplos de virtude e de celibato.
Convenhamos: o que foi visto nas conversas de Vorcaro e de sua parceira é algo bastante comum entre casais maduros. E muitos dos que fizeram comentários maldosos devem ter mensagens até mais apimentadas em seus diálogos com os respectivos cônjuges.
É curioso que isso tenha ocorrido justamente no mês em que se comemoram os direitos conquistados pelas mulheres. Mas podemos aproveitar esse episódio para discutir um pouco a misoginia que parece ter sido amplificada nos últimos tempos, dado o aumento de agressões verbais e físicas às mulheres, para não falar do salto absurdo no número de feminicídios.
Por que manifestações machistas e misóginas saíram dos vestiários e de mesas de bar e ganharam as redes? Pessoas desequilibradas, como esses malucos dos movimentos Redpill, Incel e MGTOW, ganharam o colo de indivíduos semelhantes, no anonimato do mundo digital. E passaram a cooptar aqueles de miolo mole. O resultado é o crescimento exponencial de um grupo que, há algum tempo, era formado por pessoas que se envergonhavam de seus pensamentos e ficavam quietas. Hoje, infelizmente, esses malucos se uniram e parecem crescer mais e mais a cada dia.
Na luta contra o machismo e a misoginia, as mulheres precisam de toda a ajuda possível: da mídia, da Justiça e também dos homens esclarecidos. Esse trabalho é conjunto é que vai mitigar a ação dos machistas explícitos e daqueles que estão no armário. São os misóginos que se revelam apenas em determinados momentos, geralmente nas confrarias do preconceito, os mais perigosos, pois agem silenciosamente e pegam todos de surpresa quando assumem seu machismo.
A reação ao caso mostra como ainda lidamos mal com a intimidade alheia e como a misoginia encontra brechas para se manifestar sob o disfarce do humor. A exposição de uma mulher vira combustível para julgamentos morais que não recaem sobre os homens envolvidos e essa assimetria revela o quanto ainda estamos distantes de uma cultura de respeito.
O combate ao machismo exige vigilância constante e participação ativa de todos. A mudança não depende apenas de leis ou campanhas, mas da disposição coletiva de interromper ciclos de humilhação, de recusar discursos que naturalizam a desigualdade e de reconhecer que a dignidade de qualquer pessoa não pode ser tratada como entretenimento. Quando esse entendimento se torna parte da vida cotidiana, episódios como o que vimos deixam de ser celebrados e passam a ser compreendidos como sinais de um problema que precisa ser enfrentado com seriedade.