Uma música antiga dizia o ser o tempo um compositor de destinos. Como se nós apenas fôssemos passageiros de uma história que já está escrita e na qual somos personagens. Fiquei pensando sobre isso durante alguns dias. É que certas palavras são como o vinho na garrafa: elas maturam em seu próprio ritmo. Leituras e conversas – às vezes, letras de canções – podem gerar ideias depois de algum tempo; ficam circulando em sua mente até encontrar o formato ideal. Algumas têm serventia. Outras servem apenas para apaziguar sentimentos que afligem o coração.
Foi o caso desse verso sobre o tempo ser um compositor de destinos. Tudo o que vivi até aqui já estava previsto? Eu não tive nenhuma participação na construção de minha história e segui apenas um roteiro escrito por um autor celestial?
Depois de um tempo, cheguei a uma conclusão. Se o nosso destino é fruto de uma composição, prefiro pensar que alguém pode até ter escrito a melodia de nossa história, uma base na qual iremos navegar. Mas somos nós que iremos escrever a letra dessa canção, tomando decisões que vão determinar as rimas dos versos e conduzir a narrativa. Se tivermos talento e graça para viver a vida, a letra da canção vai completar a banda melódica. Se formos geniais, as palavras serão mais lembradas que a sequência de notas musicais. Mas se colocarmos nossa existência no piloto automático, seremos mais lembrados pela melodia do que pela letra.
Ultimamente, tenho falado muito com alguns amigos sobre felicidade. Não é uma condição plena, que atingimos o tempo todo – com exceção, talvez, da minha querida Cristina (mesmo ela, porém, tem rompantes de raiva em determinados dias). O fato é que muitas vezes confundimos felicidade com harmonia interior. Por isso, muitos de nós buscam o equilíbrio como fonte de bem-estar.
Equilíbrio e simetria são a fonte de uma vida saudável. Fazer exercício, seguir uma alimentação moderada e maneirar nos excessos é uma receita para a longevidade. Mas isso funciona também em nosso mundo emocional? Como procurar equilíbrio em uma vida que é desequilibrada por definição?
O ideal é obter sintonia entre o conforto e a inquietação. Entre a paz espiritual e o sucesso profissional. Mas isso será uma utopia? Talvez não. Será que não precisamos aprender a estarmos confortáveis com a inquietude? Aceitar os desequilíbrios que a vida nos oferecer e ter uma atitude positiva em relação às dificuldades em vez de nos desesperarmos ou nos revoltarmos?
Essas são apenas dúvidas de quem está aprendendo a viver uma nova fase da existência. Neste meu momento, não existem mais certezas – e olhe que já fui bastante assertivo em relação às minhas opiniões sobre a vida. Hoje, tenho apenas suspeitas e vontade de entender o propósito das coisas.
Em minhas reflexões, penso muito sobre essa obsessão com o equilíbrio e a simetria. Outro dia, convidei alguns amigos que estavam em casa a olhar pela minha varanda e observar a paisagem. Disse que as únicas coisas simétricas que poderíamos ver seriam as construções feitas por mãos humanas. Porque sempre buscamos sentido na simetria de nossas obras. O restante, porém, eram obras da natureza. As copas das árvores e os formatos das nuvens seguiam uma lógica própria e não possuíam simetria alguma. “O que é mais bonito?”, provoquei. “Aquele prédio com suas medidas proporcionais ou aquele pedaço de céu, com nuvens de três cores diferentes e formatos imprevisíveis?”.
Fui adiante: buscamos o equilíbrio. Mas o sucesso (financeiro ou conceitual) é fruto de uma ação equilibrada? Aquele que obtém fortuna ou reconhecimento intelectual superou seus objetivos através de um comportamento pautado pelo equilíbrio? Ou tomou caminhos impensáveis e saiu do mesmo caminho que a maioria tomou?
Outra questão que me aflige: quem obteve o sucesso chegou ao estado de felicidade? Não necessariamente. Há pessoas riquíssimas infelizes; há gente paupérrima que sempre tem um sorriso sincero no rosto. Nestes dois exemplos, quem vai aproveitar mais a vida? Aquele que vive cercado de luxo ou quem simplesmente vê com entusiasmo tudo o que experimenta?
Como eu já escrevi, não tenho a pretensão de encontrar respostas ou ditar certezas. Estou apenas na fase em que procuro entender a vida – mesmo que ela me apresente cada vez mais razões para me provar que não devemos procurar entendê-la.
Talvez seja justamente isso que a vida esteja tentando ensinar: não existe manual, nem roteiro definitivo, nem linha reta que nos garanta estabilidade. O tempo pode até compor a melodia, mas somos nós que precisamos ter coragem de improvisar a letra — mesmo quando a harmonia parece falhar. Provavelmente a verdadeira sabedoria esteja em aceitar que a existência é feita de assimetrias, de notas fora do compasso e de versos que só fazem sentido depois que o tempo passa. E, enquanto tentamos decifrar esse enigma, precisamos manter a esperança de que, apesar de tudo, a canção que construímos durante a vida continua valendo a pena.