Conheci José Ruy Gandra nos corredores da Editora Abril, ainda nos anos 1980. Depois, trabalhamos juntos na EXAME. Ele sempre foi uma referência entre os colegas pela cultura, pelo texto refinado e pela língua ferina – não necessariamente nesta ordem. Tinha uma qualidade rara no jornalismo, a de enxergar com facilidade um ângulo novo para abordar um assunto batido.
Lembro de um perfil da então ministra Dorothéa Werneck, de autoria de um repórter em Brasília, que caiu em suas mãos para, bem, torná-lo legível. Ele reescreveu o “lead” da matéria assim (não eram exatamente essas palavras, mas perdoem a falta de uma memória mais acurada): “Com um corte de cabelo um tanto fora de moda, a ministra Dorothéa Werneck…”.
Depois de passar pelos maiores grupos de comunicação do país, Zé Ruy, como é conhecido pelos amigos, enveredou pelo mercado editorial, se tornando editor de livros e um dos ghost-writers mais renomados da praça.
Sua última obra, de próprio punho, será lançada amanhã na Livraria Bandolim (Rua Conselheiro Brotero, 952): “O espírito de um tempo de lutas”. Neste livro autobiográfico, ele faz um paralelo entre sua experiência como estudante da faculdade de direito do Largo do São Francisco, entre 1976 e 1980, e os principais acontecimentos no Brasil e no mundo.
Nesta época polarizada, muitos poderão dizer que a narrativa flerta com a esquerda. Mas o que poderia um jovem estudante, com uma bagagem intelectual já bastante considerável, fazer durante aqueles anos de ditadura militar? A contestação era o caminho mais claro para nove entre dez universitários que estavam nos bancos escolares daquele tempo.
Zé Ruy ouviu vários de seus ex-colegas de faculdade e inseriu seus depoimentos no decorrer de seu relato. Um deles é o do ex-ministro João Santana, que fala sobre o cenário político daquele momento histórico e, de certa forma, explica o posicionamento político do autor e de muitos contemporâneos: “Não havia muito espaço para discussões mais refinadas, que trouxessem, por exemplo, as ideias liberais. Nem mesmo num curso de direito, com um matiz liberal clássico por definição, essa discussão era permitida entre os estudantes. Em resumo: os grupos políticos eram blocos à esquerda e à direita e o que os separava era ser a favor ou contra a ditadura militar”.
O livro atravessa a segunda metade da década de 1970 com elegância e termina no governo Figueiredo, quando os primeiros ventos de redemocratização, com a Lei da Anistia, de 1979, começaram a soprar. É um registro que marca a geração que veio antes da minha e que preparou o caminho para um novo Brasil.
Com a palavra, Zé Ruy: “Durante meia década de Direito-UPS, fizemos a nossa parte – e, mesmo sem ter, à época, plena consciência deste fato, entregamos um Brasil prontinho para a grande festa da redemocratização plena. Ainda teríamos de aguardar alguns anos para atestar essa plenitude. Mas deixamos a folha dobrada. Outros, no nosso rastro, concluiriam essa obra. Ninguém, afinal, faz nada sozinho. Precisávamos uns dos outros para que a tarefa se concluísse como sonhávamos”.
Um brinde a essa geração. E ao grande José Ruy Gandra.