Ultimamente, tenho visto grupos de conservadores que debatem com entusiasmo a filosofia grega e enxergam em Platão e Sócrates símbolos de um arsenal ideológico bastante poderoso. O primeiro, por exemplo, defende a hierarquia natural entre seres humanos, desconfia da democracia e defende que poucos são aptos a governar. Já Aristóteles abraça essas teses e vai além, normalizando a desigualdade entre as pessoas e tratando a comunidade não como um agrupamento de indivíduos livres, mas como um organismo do qual cada um tem uma função específica. Na prática, segundo este filósofo, existem os que mandam e os que obedecem.
Essas ideias proporcionam um debate acalorado, pois há milhões de pessoas que defendem a igualdade entre os cidadãos e o conceito de democracia como soberano. Mas gostaria de levar a discussão para outro quadrante, recuperando as ideias de outro pensador. Aristóteles foi discípulo de Platão. E Platão, por sua vez, foi membro de uma Academia fundada por um terceiro filósofo: Sócrates.
O mundo polarizado de hoje talvez precise estudar mais os princípios socráticos.
Sócrates não é associado à esquerda, pois não oferece projeto coletivo, classe redentora ou utopia. Todo movimento social, em algum momento, precisa parar de questionar e começar a afirmar. Sócrates, no entanto, nunca para. Isso o torna perigoso como referência e nunca foi adotado pela esquerda como mascote.
Sócrates, assim, se tornou uma espécie de órfão ideológico. Um pensador que a direita não pode usar porque ele desmonta certezas e que a esquerda não pode usar porque ele não tem respostas, apenas perguntas.
Em um debate público dominado por convicções fabricadas, Sócrates seria provavelmente o pensador mais incômodo de todos. Ele atacaria o pressuposto que a direita e a esquerda compartilham: a verdade absoluta propagada pelos convictos. O fanático e o ativista partem do mesmo lugar. Sócrates seria igualmente insuportável para ambos, pois era um homem que sabia apenas que não sabia.
Mas havia em Sócrates algo que vai além da ironia filosófica e do método de questionamento. Havia uma preocupação que ele considerava mais urgente do que qualquer debate político. Estamos falando do cuidado com a alma.
Para Sócrates, a grande tragédia humana não era a pobreza, a derrota na guerra ou a injustiça dos governantes. Era o descuido com a vida interior. Um homem que não pensa sobre o que realmente o estimula é alguém que dormiu a vida inteira sem saber. A frase que melhor o resume — “uma vida não examinada não merece ser vivida” — precisa ser estudada nos dias de hoje.
Esse diagnóstico nunca foi tão atual. Vivemos num tempo em que o homem é empurrado a reagir antes de pensar. As redes sociais transformaram a vida pública em um torneio de reflexos condicionados. A polarização é uma forma de analfabetismo emocional e filosófico, em que a identidade de grupo substitui o pensamento individual e a raiva substitui o argumento.
Sócrates veria nesse cenário não uma crise democrática, mas uma crise de alma. Um povo de homens cada vez mais ocos por dentro. Ele é o autor da filosofia mais simples da história grega, aquela que não deixou um livro sequer, que foi praticada nas ruas e nas praças, que não exigia mais do que duas pessoas dispostas a conversar com honestidade. Seus pensamentos podem ser o antídoto mais eficaz contra a crise que está dentro de todos nós. Não oferece respostas. Mas ensina, antes de tudo, a desconfiar das respostas fáceis. E num mundo que fabrica certezas em escala industrial, isso é uma mercadoria preciosíssima.