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Títulos diferentes para Estados Unidos, Brasil e Portugal

Aluizio Falcão Filho
1 de fevereiro de 2026

Recentemente, revi “Psicose”, lançado em 1960, desta vez acompanhado de minha filha. E me lembrei da velha história que dizia o título do filme ser “O Filho que era a Mãe” em Portugal – um epíteto que entregaria o final da película. É uma piada, evidentemente. Mas essa brincadeira tem lá seu fundo de verdade. Vejamos o caso de “Vertigo”, do mesmo Alfred Hitchcock. Por aqui, essa produção de 1958 se chamou “Um Corpo que Cai” (estrelado por James Stewart e Kim Novak, na imagem). Mas, em terras lusitanas, o título era “A Mulher que Viveu Duas Vezes”. O nome não revelaria o final, mas anteciparia um “plot twist” (reviravolta na trama) importante no roteiro.

Com um oceano separando o Brasil e Portugal, é natural que tenhamos culturas diferentes nessas duas nações. Falamos o mesmo idioma, com variações de sotaque e de gírias, mas pensamos de maneiras diferentes. O brasileiro é mais chegado a metáforas e tem uma linguagem mais colorida; o português é literal e gosta de uma lógica radical em suas frases.

Por conta da diferença de mentalidades, é natural que os títulos das produções de Hollywood sejam traduzidos de forma diferente no Brasil e em Portugal. Os portugueses gostam de traduções literais e os brasileiros abusam da licença poética ao batizar uma película. Mas, quando se trata de usar a criatividade para estampar uma chamada no pôster de um filme, os resultados são bem diferentes. Vamos a alguns exemplos:

“The Wild Bunch” (literalmente “O Bando Selvagem”). Dirigido por Sam Peckinpah e estrelado por William Holden, acompanha um grupo de bandoleiros envelhecidos em busca de um último grande roubo na fronteira entre EUA e México. No Brasil, virou “Meu Ódio Será Sua Herança”, como se o filme fosse uma carta de rancor deixada no testamento. Já em Portugal, optaram por “A Quadrilha Selvagem”, direto ao ponto, sem ressentimentos, só bandidagem mesmo.

“Rebel Without a Cause” (ou “Rebelde Sem Causa”), dirigido por Nicholas Ray e protagonizado por James Dean. Mostra um adolescente em conflito com a família e a sociedade, tentando encontrar seu lugar no mundo. No Brasil, virou “Juventude Transviada”, como se fosse um boletim escolar dos anos 50. Em Portugal, “Fúria de Viver”.

“Mr. Smith Goes to Washington” (“O Sr. Smith Vai a Washington”) é dirigido por Frank Capra e estrelado por James Stewart. Conta a história de um homem comum que enfrenta a corrupção política com idealismo. No Brasil, virou “A Mulher Faz o Homem”, o que parece transformar o Sr. Smith em um mero coadjuvante. Em Portugal, “Peço a Palavra” soa como discurso de vereador em sessão solene.

“To Kill a Mockingbird” (ou “Matar um Tordo”), dirigido por Robert Mulligan e protagonizado por Gregory Peck. É sobre um advogado que defende um homem negro acusado injustamente, enquanto sua filha observa o mundo com olhos inocentes (o título vem de uma frase dita pelo personagem Atticus Finch: “É um pecado matar um tordo”, referindo-se a um pássaro que apenas canta e não faz mal nenhum às pessoas). No Brasil, virou “O Sol é Para Todos”, poético e esperançoso. Já em Portugal, “Na Sombra e no Silêncio” parece título de suspense psicológico ou música da cantora new age Enya.

“True Grit” (“Coragem Verdadeira”). Dirigido por Henry Hathaway e estrelado por John Wayne, segue uma jovem determinada que contrata um xerife durão para vingar a morte do pai. No Brasil, virou “Bravura Indômita”, digno de um épico de capa e espada. Em Portugal, “A Velha Raposa” dá a impressão de que o xerife virou mascote de time de futebol veterano.

Mas houve casos em que os portugueses preferiram traduzir literalmente os nomes criados por Hollywood enquanto os brasileiros deram asas à imaginação:

“Home Alone”, dirigido por Chris Columbus e estrelado por Macaulay Culkin, mostra um garoto de oito anos que é acidentalmente deixado para trás quando sua família viaja para Paris no Natal. Ele aproveita a liberdade até precisar defender sua casa de dois ladrões atrapalhados. No Brasil, virou “Esqueceram de Mim”. Já em Portugal, mantiveram a simplicidade com “Sozinho em Casa”. A atriz que faz a mãe do menino, Catherine O’Hara, foi para o andar de cima nesta semana, por sinal.

“The Godfather”, dirigido por Francis Ford Coppola e estrelado por Marlon Brando, acompanha a ascensão de Michael Corleone dentro da máfia, após o declínio de seu pai, Don Vito. É um épico sobre poder, família e lealdade. No Brasil, virou “O Poderoso Chefão”. Em Portugal, mantiveram o título original com “O Padrinho”.

“One Flew Over the Cuckoo’s Nest”. Dirigido por Miloš Forman e estrelado por Jack Nicholson, apresenta um homem que finge insanidade para escapar da prisão e acaba confrontando a opressão de uma enfermeira em um hospital psiquiátrico. No Brasil, virou “Um Estranho no Ninho”. Em Portugal, “Voando Sobre um Ninho de Cucos” manteve a poesia do original (que usa um trocadilho envolvendo a palavra “cuckoo”).

“The Hangover”, dirigido por Todd Phillips. Estrelado por Bradley Cooper, mostra três amigos que acordam em Las Vegas sem lembrar de nada da noite anterior e precisam encontrar o noivo desaparecido antes do casamento. No Brasil, virou “Se Beber, Não Case!”. Em Portugal, “A Ressaca” é uma tradução direta e honesta.

“Giant”, dirigido por George Stevens e estrelado por James Dean, Rock Hudson e Elizabeth Taylor. Conta a história de uma família texana envolvida em conflitos sociais e raciais ao longo de décadas, com petróleo, orgulho e redenção no pano de fundo. No Brasil, virou “Assim Caminha a Humanidade”. Em Portugal, usaram o dicionário para batizar a película de “O Gigante”.

Mas também temos exemplos em que os brasileiros mantiveram o espírito original e os portugueses abusaram da inventividade na hora de bolar suas versões:

“Die Hard”, dirigido por John McTiernan e estrelado por Bruce Willis, acompanha um policial de Nova York que tenta salvar reféns — incluindo sua esposa — durante um ataque terrorista a um arranha-céu em Los Angeles na véspera de Natal. No Brasil, virou “Duro de Matar”, quase igual ao original. Já em Portugal, o nome escolhido foi “Assalto ao Arranha-Céus”.

“The Girl Who Played with Fire”, dirigido por Daniel Alfredson e protagonizado por Noomi Rapace. Conta a saga da hacker Lisbeth Salander, envolvida em uma trama de assassinatos, tráfico sexual e conspirações do passado. No Brasil, virou “A Menina que Brincava com Fogo”, direto e simbólico. Em Portugal, o título escolhido foi “A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo”.

“Mean Girls”, dirigido por Mark Waters e estrelado por Lindsay Lohan, mostra uma adolescente que entra num colégio novo e se infiltra no grupo das garotas mais populares, descobrindo as regras cruéis da hierarquia social adolescente. No Brasil, virou “Meninas Malvadas”. Em Portugal, “Giras e Terríveis”.

“Inglourious Basterds”, dirigido por Quentin Tarantino e estrelado por Brad Pitt, reimagina a Segunda Guerra Mundial com um grupo de soldados judeus e americanos que caçam nazistas na França ocupada. No Brasil, virou “Bastardos Inglórios”, mantendo o espírito provocador. Já em Portugal, tornou-se “Sacanas Sem Lei”.

“The Imitation Game”, dirigido por Morten Tyldum e protagonizado por Benedict Cumberbatch, retrata a vida de Alan Turing, o matemático que ajudou a decifrar os códigos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto enfrentava a perseguição por sua homossexualidade. No Brasil, virou “O Jogo da Imitação”, que remete à lógica e ao mistério da criptografia. Em Portugal, virou “O Código Enigma”, entregando um spoiler logo no título.

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