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Sabe quando uma coisa é tão ruim que acaba ficando boa?

Aluizio Falcão Filho
10 de agosto de 2025

Quem passou a adolescência nos anos 1980, assistindo canais de TV aberta, conhece a sensação: muitas vezes encontrávamos atrações que era tão ruins que acabavam ficando boas e divertidas, hipnóticas até. Esse mar de atrações trash era viciante. Muitos de minha geração passaram madrugadas em claro vendo produções de quinta categoria, atraídos por roteiros sem pé nem cabeça ou por atuações tão canhestras que ficavam divertidíssimas.

Recentemente, topei com algo assim nas redes sociais. São minisséries que possuem o mesmo efeito de um filmeco de segunda que passava nas noites insones da extinta TV Tupi – ou nas altas horas da antiga TVS. Os telespectadores de hoje, como os jovens brasileiros da década de 1980, simplesmente não conseguem parar de ver.

Os episódios duram minutos e o tempo total da série parece o de um filme. A trama é sofrível, os figurinos são cafonas e a atuação de todos é trôpega e tosca. Em tese, tinha tudo para ser um fracasso retumbante – mas, na verdade, é um dos maiores sucessos da internet.

Na China, os microdramas movimentaram cerca de US$ 6,9 bilhões em 2024. Foram mais de 30 000 produções no ano, com gravações que duram menos de duas semanas. Já nos EUA, apps como ReelShort e DramaBox lideram o mercado de entretenimento, com cerca de 50% dos downloads do gênero em 2025. Estúdios americanos estão adaptando o formato, e atores de Hollywood têm encontrado novas oportunidades nesse modelo ágil e absorvente.

Já vi três produções do gênero, pulando cenas e acabei vendo a trama de duas horas em 45 minutos. É divertido, mas temos que colocar nosso grau de exigência intelectual no chinelo. Uma telenovela mexicana dos anos 1980, como “Os Ricos Também Choram”, por exemplo, é uma verdadeira obra de arte se comparada com a microdramaturgia.

Das poucas produções que assisti, a que mais gostei foi “Husband for Hire” (um título que deve ter batizado inúmeros filmes e séries ao redor do mundo), no qual estrelam dois desconhecidos, Grace Woods Swanson e Ali Badalov (imagem). O enredo é rasteiro: Lizzie contrata Jack (que ela acredita ser um garçom de hotel) para se passar por seu namorado na festa de noivado de sua meia-irmã (que roubou o antigo noivo dela). No entanto, quando Jack a pede em casamento na frente de toda a família, ela não tem escolha a não ser aceitar. Mal sabe ela que ele não é um ator desempregado, mas sim o neto de um bilionário dono de hotel.

Esse é um plot que se repete com frequência: vidas secretas de gente muito rica. É o caso do primeiro microdrama brasileiro: “A Vida Secreta do Meu Marido Bilionário”, que alcançou mais de 400 milhões de visualizações desde sua estreia na plataforma ReelShort. Produzido pela Bewings Entertainment, conhecida por adaptar tramas globais para mercados locais, o projeto ganhou autenticidade ao escalar atores conhecidos pelo público brasileiro: Jessika Alves e Victor Sparapane, ambos com passagem marcante pela novela Malhação, que interpretam os protagonistas Nathália e Sebastião.

Essas produções mesclam a estética de novela com ritmo de TikTok, criando uma linguagem nova que tem tudo para abrir um novo mercado na indústria cinematográfica ou televisiva. Mais que isso: essas produções vão, mais cedo ou mais tarde, influenciar as grandes produtoras. Rapidamente, veremos Hollywood e as principais produtoras de streaming incorporando esse novo tipo de narrativa em seus lançamentos. É esperar para ver.

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