O livro “Sociedade do cansaço”, do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, está há algumas semanas no topo da lista de mais vendidos do país, na categoria de não ficção (apesar de ter sido publicado pela primeira vez em 2015). Han descreve a passagem de um modelo social baseado na disciplina e na repressão para uma era marcada pela autoexigência permanente. Nesse novo cenário, o indivíduo assume o papel de gestor de si mesmo, impulsionado por um ideal de produtividade ilimitada que transforma liberdade em obrigação.
A crença de que tudo podemos, assim, pode nos levar à depressão, ao burnout e ao esgotamento mental. Han (imagem) argumenta que esse processo se intensifica com a perda de rituais coletivos, que antes estruturavam a vida em comunidade. Em seu lugar, surge uma hiperatividade digital que fragmenta a atenção e estimula um consumo incessante de estímulos, descrito pelo autor como uma “pornografia do infinito”, visível no fluxo contínuo de telas e redes sociais.
Han empresta o conceito de sociedade disciplinar de Michel Focault para definir o modelo que vivíamos até algumas décadas atrás. Além disso, utiliza ideias de Friedrich Nietzsche (vontade de potência) e Hannah Arendt (vita contemplativa) para burilar seus argumentos sobre a necessidade de revitalizar a o estilo contemplativo contra a hiperatividade atual. Há um ponto que talvez mereça uma discussão mais ampla: o caráter multidisciplinar da sociedade atual nos leva à dispersão; indivíduos acumulam papéis e tarefas, mas raramente alcançam profundidade em qualquer campo.
A ausência de tempo para o tédio criativo, que Han considera essencial para a imaginação e para a produção artística, é substituída por estímulos constantes que impedem a contemplação silenciosa. O resultado é uma cultura acelerada, marcada por superficialidade e pela dificuldade de sustentar uma vida interior rica, em que a arte, a filosofia e a reflexão se tornam cada vez mais raras.
Han não é o primeiro pensador moderno a se incomodar com as mudanças da sociedade e a achar que vivíamos melhor no passado. O ponto de partida desta discussão, inclusive, foi o próprio conceito de “vita contemplativa”, de Arendt. O detalhe é que este fundamento foi publicado pela autora em… 1958! Além da pensadora alemã, outros filósofos também se mostraram inconformados com as transformações da sociedade que interferiam na formação de um pensamento mais profundo: José Ortega y Gasset (1883-1955), T.S. Eliot (1888-1965), Martin Heidegger (1889-1976) e Theodor Adorno (1903-1969).
Tais pensadores testemunharam a grande transformação que houve nas sociedades entre os séculos 19 e 20. Neste período, a eletricidade veio para transformar radicalmente a vida de todos os habitantes do planeta. Nos últimos anos, a cultura digital criou um efeito semelhante em nosso mundo, trazendo mudanças radicais e tornando a vida ainda mais frenética e competitiva. É neste cenário que a obra de Han é produzida: temos mais um pensador que se incomoda com o frenesi tecnológico e defende a contemplação como única forma de produzir insights filosóficos.
Ocorre que dificilmente a vida moderna voltará a abrir espaço para a contemplação como motor do pensamento. O que temos no presente – um cotidiano marcado por pessoas que tentam exercer multitarefas e por um bombardeio incessantes de informações e ideias – dificilmente será dizimado para dar lugar a uma vida mais calma.
Han defende que o tédio pode gerar pensamentos criativos e profundos. Isso talvez possa ter feito sentido no passado ou possa ser algo necessário para um ramo específico da filosofia. Mas há quem se sinta confortável, criativo ou mesmo profundo no mundo atual. Será que são de verdade? Isso é tema para outra reflexão, mais produnda.
Para o bem ou para o mal, este é um cenário que dificilmente retrocederá. Portanto, a crítica de Han é válida, mas pode não ter um efeito muito prático, a não ser para aqueles que desejam apertar o pedal do freio e ainda não descobriram como fazer isso.
É bastante louvável, no entanto, que existam tantas pessoas preocupadas com os caminhos que podem levar à frustração ou ao esgotamento – e que desejam, através dessa leitura, encontrar caminhos para a mudança. Em um passado recente, os insatisfeitos procuravam livros de auto-ajuda. Hoje, buscam livros de filosofia. Trata-se de um avanço interessante para a humanidade. E um sinal de que, em tempos de inteligência artificial, as pessoas querem refletir sobre as próprias vidas e encontrar caminhos para evoluir. Neste sentido, a publicação de Han é bem-vinda e abre um novo nicho de mercado que pode ser bastante promissor.