De onde veio essa obsessão entre os chefs de São Paulo em colocar flores, folhas e brotos para decorar os pratos que são servidos em seus restaurantes? Talvez essa tendência tenha brotado diretamente de um algoritmo: hoje, mais do que nutrir o corpo, o prato precisa alimentar o feed. E uma pétala estrategicamente posicionada em uma foto bem tirada podem render muitas curtidas. O sabor? Ah, esse vem depois. Se vier.
Eu detesto esses matinhos no prato e sempre gasto um tempo para separá-los daquilo que realmente interessa. Mas essa era uma prática que, antigamente, somente se via nos restaurantes mais caros. Nos últimos tempos, porém, a mania se espalhou até pelos estabelecimentos menos estrelados.
A gastronomia paulistana, sempre antenada com as tendências internacionais, parece ter adotado a estética botânica como uma espécie de dogma. Nesta toada, os chefs viraram floristas e nós nos transformamos em fotógrafos, em busca do clique perfeito antes que o prato esfrie.
Por que será que compartilhamos fotos de nossas refeições? O plural, neste caso, é proposital, pois também tenho este hábito. Terá isso a ver com algum tipo de ansiedade gerada pela dopamina que vem do uso frequente das redes sociais? Não basta vivermos uma situação: temos que registrá-la, comentá-la e compartilhá-la. Foi assim que a comida virou conteúdo e o paladar ficou em segundo plano.
Muitos dirão que essa prática é uma forma de ostentação. E ostentar nas redes virou esporte coletivo. Curiosamente, muitos dos fotógrafos gastronômicos de hoje usam Mounjaro, Wegovy e Ozempik. Ou seja, registram aquilo que é bonito, mas não necessariamente estão se deliciando com o prato que aparece no Instagram.
No meio de tudo isso, ainda temos de lidar com o FOMO (“fear of missing out”, ou o medo de ficar de fora.) Então, vale postar qualquer coisa, desde que pareça incrível. No fim, a ostentação digital é só um sintoma da lógica das redes, que amplificam tudo isso com gosto.
Assim, tudo parece virar vitrine: a folha decorativa que poucos mastigam ou o pôr do sol que poucos apreciam em sua totalidade. O prato acabou virando um palco e a refeição uma performance. Mas nem todo mundo embarca nessa encenação. Ainda temos pessoas que sentem o momento, postando menos e vivendo mais. Essa resistência discreta nos faz lembrar que autenticidade ainda existe, mesmo quando não viraliza.