Não sou fã de Luciano Huck e considero seus quadros de cunho social bastante apelativos. Em suas intervenções públicas, ele geralmente discorre sobre os personagens que conheceu nos rincões brasileiros durante as gravações de seu programa de TV. Mas raramente faz análises sobre o cenário que deixou estes indivíduos na pobreza ou aponta caminhos para que suas comunidades consigam prosperar.
No último final de semana, em um evento, fugiu à regra e fez críticas ao Bolsa Família. Ele disse que os beneficiados “criam um monte de atalhos para conseguir ficar no programa de distribuição de renda e proteção social ad aeternum”. Huck mexeu em um vespeiro ao criticar uma das vacas sagradas da política nacional. Antes um alvo da direita brasileira, o Bolsa Família foi incorporado pelos conservadores a partir do momento em que o ex-presidente Jair Bolsonaro deu até um décimo-terceiro salário aos beneficiados pelo programa. E hoje é uma unanimidade entre os políticos.
O senador Flávio Bolsonaro, em encontros reservados com empresários, tem dito que os programas sociais são importantes para o Brasil e precisam ser preservados. Mas que é preciso estimular as economias regionais para criar condições de saída às populações mais carentes do Bolsa Família.
Huck deveria ter se preparado melhor para o debate e ter visto alguns estudos que glorificam o programa social que se expandiu durante os primeiros anos de Luiz Inácio Lula da Silva no poder. Desta forma, poderia fazer ponderações e driblar a avalanche de críticas que recebeu.
Um destes estudos, por exemplo, mostra que 61% dos beneficiários que entraram no programa em 2014 deixaram de receber recursos até 2025. Os dados, registrados pela Fundação Getúlio Vargas, no entanto, mostram uma média nacional. Há, portanto, regiões em que os assistidos ficam muito mais tempo recebendo auxílio.
Muitos empresários baseados no Nordeste dizem ter dificuldades para contratar mão-de-obra em função do Bolsa Família. Segundo esses empregadores, os candidatos preferem receber menos e não trabalhar, drenando recursos do Erário. Os representantes do PT e do PSOL, por sua vez, dizem que isso acontece porque os salários oferecidos são baixos demais. Isso pode até ser verdade, mas os vencimentos de colaboradores são calculados na base da contribuição da cadeia de valor. Ou seja, funções que têm baixo valor agregado vão ganhar menos. Ao contrário do que possa parecer na esquerda, não é a ganância dos empresários que torna os salários menores nos empregos subalternos.
De qualquer forma, o apresentador da Globo abriu uma discussão importante: é preciso analisar melhor esse programa e estudar aquelas regiões que são extremamente dependentes do dinheiro estatal para providenciar soluções de mercado a estes locais.
Um bom caminho seria ampliar parcerias com iniciativas do Terceiro Setor que já atuam nessas áreas carentes, como Amigos do Bem, tocado por Alcione Albanesi, e Pacto contra a Fome, capitaneado por Geyze Diniz. Essas duas empresárias sociais conhecem os caminhos para reduzir a pobreza e a insegurança alimentar das camadas mais desprovidas da população e podem contribuir ainda mais para combater a penúria que insiste em atingir, por exemplo, o sertão nordestino.
A discussão que se abre não é para acabar com os programas sociais. Mas sim para melhorá-los e oferecer dignidade aos beneficiados. E dignidade não se obtém apenas com renda e alimentação. Se consegue também com propósito e trabalho.
A discussão sobre o Bolsa Família só fará sentido se for acompanhada de coragem intelectual para enfrentar seus paradoxos. O país precisa olhar para além das narrativas confortáveis e encarar a realidade de que políticas sociais, quando mal calibradas, podem cristalizar dependências em vez de abrir caminhos. É indispensável avaliar resultados e compreender por que certas comunidades avançam enquanto outras permanecem estagnadas. Só assim será possível transformar um programa de transferência de renda em uma verdadeira plataforma de mobilidade social, capaz de conectar assistência imediata com oportunidades reais de desenvolvimento humano e econômico.