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Precisamos da sabedoria de pessoas como Bennet Cerf

Aluizio Falcão Filho
27 de julho de 2025

Em um momento em que os homens públicos dão péssimos exemplos de conduta e de comportamento à humanidade, muitos de nós começam a olhar para o passado e buscar por lá nomes que possam nos servir de inspiração. Nesta procura, passei boa parte de minhas férias lendo um livro absolutamente fabuloso, editado em 1977: “At Random: the reminescences of Bennet Cerf”. O título é baseado em um trocadilho. “At Random” pode significar “ao acaso” ou “aleatoriamente”. Mas esse era o nome da editora fundada e comandada por Cerf, a Random House, que existe até hoje é o maior grupo editorial do mundo (sob a alcunha de Penguin Random House). Mas quem seria esse sujeito de nome esquisito?

Confesso que não sabia de sua existência até recentemente. Só vim tomar conhecimento de sua figura há cinco anos e, para fazer jus ao nome de sua empresa, isso ocorreu totalmente por acaso. Ao fazer uma busca sobre um programa antigo de televisão nos Estados Unidos, o YouTube me sugeriu ver um episódio de outro show americano, chamado “What’s My Line?”. Cliquei naquele link e fiquei absolutamente viciado com a produção. Vi quase todos os episódios em três meses de maratona.

O programa, apresentado pelo jornalista John Charles Daly e exibido pela rede CBS entre 1950 e 1967, consistia em mostrar pessoas aleatórias a um júri, cuja missão era descobrir qual seria a atividade daquele personagem (a plateia e os telespectadores eram informados desde o início de cada quadro sobre a profissão do entrevistado). O ponto alto do programa era a seção “Mistery Guest”, na qual um convidado famoso era questionado pelos jurados que tinham seus olhos vendados; esse convidado geralmente disfarçava sua voz e o resultado era impagável. Entre as passagens inesquecíveis, marcaram presença Debbie Reynolds, Sean Connery, Salvador Dali e Muhammad Ali.

Já entre aqueles que não eram conhecidos pelo grande público, dois podem ser destacados: o empresário dos Beatles, Brian Epstein (uma figura discreta e pouco fotografada na época, que foi descoberto por conta de seu sotaque britânico) e a atriz brasileira Heloísa Helena, que apresentava a versão nacional do show.

E o que Bennet Cerf tem a ver com isso? Ele fazia parte do time fixo de jurados, juntamente com a atriz Arlene Francis e a jornalista Dorothy Kilgallen, que morreu em 1965, durante uma investigação sobre o assassinato do presidente John F. Kennedy (Dorothy merece mais tarde uma coluna apenas sobre sua trajetória).

O livro, curiosamente, não foi escrito por Cerf e sim compilado por um de seus filhos e por sua viúva a partir de artigos, anotações e depoimentos gravados. O prefácio da última edição, escrito por Christopher Cerf em 2001, traz uma descrição evidentemente contaminada pela admiração que um filho sente pelo pai exitoso. Mesmo assim, trata-se de uma descrição perfeita de quem foi Bennet Cerf: “Ele tinha um gosto literário impecável; instintos impressionantes para os negócios; energia sem limite e entusiasmo; um gênio para a publicidade e para a venda; incansável – porém alegre – determinação para aproveitar toda oportunidade com charme juvenil; honestidade desarmante; um impressionante talento para encontrar humor mesmo diante da adversidade; dono de um senso implacável de justiça e de generosidade; sentia um desejo quase dolorido de ser reconhecido e festejado; possuía uma capacidade absoluta de não se levar a sério; e uma inabalável alegria de desfrutar da sua boa sorte”.

 Descobri nesta publicação que Cerf começou sua carreira como jornalista, cobrindo finanças e bolsas de valores. Ele aproveitou como poucos uma carreira de sucessos lterários, conhecendo as grandes mentes de seu tempo e colhendo os frutos – intelectuais e financeiros – de suas conquistas.

Entre os autores que ele publicou estão gênios como Eugene O’Neill, William Faulkner, Truman Capote, Ayn Rand, Tim Roth e Ernest Hemingway. Em seu livro, ele conta ‘causos’ interessantíssimos com todos os autores e desnuda uma profissão bastante desconhecida pela sociedade – a de editor de livros. Era amigo de políticos, banqueiros, empresários e celebridades. Mas dois nomes ocupavam um lugar especial em sua agenda: o ator Bob Hope e o cantor Frank Sinatra.

É preciso destacar uma passagem na qual ele descreve sua decisão de deixar o dia a dia da Random House, àquela altura a maior editora americana de livros. E essa pode ser uma lição a todos nós. Ele diz: “Desistir das coisas é muito difícil, especialmente quando você ainda possui todas as suas faculdades. Quando você fica realmente velho e começa a decair, a energia vai embora e você pode desistir das coisas sem arrependimento – mas eu ainda tenho a mesma energia de quando era garoto. Eu não gosto de envelhecer, mas ficar velho acontece a todos e você precisa aceitar isso filosoficamente. Eu não temo a morte. Não acredito em religiões organizadas; eu acredito em ser uma pessoa boa. Se existe um Deus, Ele vai aprovar aqueles que foram bons e decentes”.

Ele nos deixou em 1971, mas seu legado continua de pé, vivo em cada livro lançado pela Penguin Random. Trata-se de uma liderança que faz falta nos dias de hoje. Em momentos como o atual, precisamos de mais pessoas como Bennet Cerf e de sua sabedoria. Liderando nações ou influenciando aqueles que lideram os países. Precisamos muito, muito – e urgentemente.

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