Para quem não dá importância ao jeito de se expressar, apenas ao conteúdo que acumula e desenvolve, um aviso: a forma é tão importante quanto a essência de uma mensagem. Para ilustrar o valor que existe no formato através do qual nos expressamos, sugiro dar uma olhada nos vídeos registrados durante a sessão do Supremo Tribunal Federal na qual se discutiu (ou não se discutiu) a possibilidade de se investigar o ministro Alexandre de Moraes.
No mundo atual, a polarização dá as cartas no quesito de credibilidade política. Portanto, muita gente só acredita naquilo que está predisposto a acreditar. Ou seja, aqueles que estão ao lado de Moraes vão comprar seu peixe. Já quem está no quadrante oposto, vai dizer que o discurso de André Mendonça tem maior credibilidade.
Este é exatamente o ponto que merece uma discussão. Jim Malone, personagem de Sean Connery em “Os Intocáveis”, diz para um gângster: “Você trouxe uma faca para uma briga de revólveres” (essa é uma tradução livre). Parece ter sido o caso de Mendonça, que aparentava estar totalmente perdido durante o bombardeio promovido por Moraes, Flávio Dino e Gilmar Mendes.
Mendonça aparentemente caiu em uma armadilha que surge na vida de todos: achar que tem razão e que ter a verdade a seu lado basta. Mesmo que isso seja verídico, porém, as intervenções do ministro para provar seu ponto de vista foram fracas. Não pelo conteúdo em si. Mas pela voz hesitante e o olhar perdido.
O contraste dessa postura relutante estava no semblante dos adversários, com o olhar confiante e as frases ditas com certeza e firmeza. Isso produziu muita raiva entre aqueles que torciam pelo relator do Caso Master. Mas é preciso reconhecer que o trio Moraes-Dino-Gilmar defendeu sua posição com maior expediente.
O problema, evidentemente, é que existem outras questões para que põem em xeque a credibilidade de Moraes – as evidências e as 52 mensagens que a Polícia Federal diz terem sido trocadas entre o juiz e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro são suficientes para questionar a isenção do magistrado que pode ser investigado.
Mesmo assim, o embate poderia ter sido mais equilibrado se Mendonça tivesse mantido o equilíbrio emocional e produzido uma postura mais firme. Ele precisa controlar melhor o seu olhar e dar mais peso à narrativa vocal (como fizeram os oponentes – vamos esquecer por enquanto quem tinha razão ou não).
O mesmo pode ser dito de Edson Fachin, que não se portou como um presidente de suprema corte. Fachin se mostrou titubeante e aberto demais às intervenções dos colegas. Se Mendonça trouxe uma faca para brigar com um revólver, Fachin portava um alfinete.
Esses exemplos mostram como não devemos nos comportar em uma reunião com adversários (sejam eles de outras empresas ou colegas de trabalho). O que precisamos fazer nestes embates do dia a dia?
Em uma sala na qual há disputa, ninguém concede autoridade a quem não a demonstra. Cinco atitudes fazem diferença nesses momentos. Primeiro, ensaiar a fala antes de entrar na reunião, de preferência em voz alta, porque o argumento que parece sólido na cabeça pode desandar na boca. Segundo, sustentar o olhar em quem contesta, sem desviar para papéis ou para a tela do computador, já que o olhar fugidio é lido como sinal de culpa mesmo quando não há erro algum.
Terceiro: fale devagar e em frases curtas, abrindo mão de advérbios e de ressalvas que servem apenas para amaciar o que se quer dizer. Em quarto lugar, escolha previamente dois ou três pontos importantes e volte a eles sempre que a conversa for desviada (quem tenta responder a tudo acaba não afirmando nada). Finalmente, aceite o silêncio depois de uma pergunta hostil, resistindo à tentação de preencher o vazio com explicações que ninguém pediu. Deixe o outro lado ficar desconfortável.
Nada disso, entretanto, substitui ter razão. Mas ter razão sem conseguir mostrá-la é um patrimônio que não rende juros. Executivos e empresários que tratam a comunicação como acessório costumam descobrir tarde demais que a percepção alheia se forma em segundos, muito antes de o mérito da questão ser examinado. Mendonça talvez estivesse certo na terça-feira. Quem assistiu à sessão sem ter lado prévio, porém, viu um homem acuado diante de três indivíduos que pareciam estar muito seguros de si. É essa a imagem que ficou. E é contra ela que o ministro terá de trabalhar nas próximas semanas.