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Os empresários na ficção científica, sempre vistos como vilões

Aluizio Falcão Filho
14 de março de 2026

A ficção científica é um terreno fértil para a imaginação e os criadores deste gênero tentam antecipar o futuro em suas narrativas. Trata-se de uma tarefa dificílima, pois é preciso levar me consideração que a humanidade evolui vagarosamente em alguns aspectos e dá saltos imensos, quebrando paradigmas, em outros.

Há uma coisa em comum nos filmes de Sci-Fi: ou o tamanho do Estado é exageradamente extensivo ou os empresários são vilões gananciosos e sem emoções. Nas películas mais famosas do gênero, “Guerra nas Estrelas” e “Jornada nas Estrelas”, percebemos que o Estado domina praticamente tudo. No caso de “Guerra nas Estrelas”, parece que só resta  à iniciativa privada a gestão de pequenos comércios, como a cantina na qual Han Solo (Harisson Ford) aparece pela primeira vez ou o ferro-velho sobre rodas que vende os robôs C3PO e R2D2 para Luke Skywalker (Mark Hammil).

Já no universo de “Jornada nas Estrelas”, empresários e raças envolvidas em comércio formam um espectro variado de práticas capitalistas – mas esse cenário não se vê exatamente na série clássica ou nos filmes realizados dentro deste contexto. Os spinoffs mostram alguns povos ligados ao livre comércio, dos quais os Ferengi são os mais explorados (na série “Nova Geração”).

Esse povo é mostrado como uma caricatura máxima do capitalismo selvagem e é regido por regras um compêndio de 285 Regras de Aquisição — um código sagrado que sacraliza a ganância acima de tudo Exemplos? “Uma vez que você tenha o dinheiro deles, nunca devolva” (Regra 1) ou “Nunca ponha a amizade acima do lucro” (Regra 19). A reputação dos Ferengi de traidores surge dessa filosofia: eles priorizam lucros a qualquer custo, vendendo a ambos os lados de guerras (Regra 34: “A guerra é boa para os negócios”), enganando aliados com contratos manipuladores (Regra 17: “Um contrato é um contrato… mas só entre Ferengi”).

Mas e o que dizer de empresários que são retratados em outros fimes de ficção científica?

Eldon Tyrell (imagem), criador da Tyrell Corporation em “Blade Runner”, talvez seja o exemplo mais emblemático da imagem que a ficção científica reserva aos grandes homens de negócios. Ele projeta replicantes praticamente iguais aos seres humanos, mas os trata como mercadorias descartáveis. Instalado em uma pirâmide monumental, Tyrell encarna o industrial que se imagina uma divindade e age como tirano. Sua morte pelas mãos do replicante Roy Batty funciona como crítica direta ao capitalismo predatório e reforça a insistência do gênero em retratar CEOs como antagonistas megalomaníacos, cujas inovações servem menos ao avanço humano e mais à dominação.

Peter Weyland, fundador da Weyland Corporation em “Prometheus” (que faz parte da franquia “Alien”), segue a mesma lógica. Ele financia uma expedição suicida em busca de respostas sobre a origem da vida e, sobretudo, sobre a imortalidade. Neste enredo, o empresário não conduz a humanidade ao progresso, mas a coloca diante de ameaças que ele próprio cria. O gênero raramente concede a esses personagens qualquer traço admirável; eles surgem como motores inevitáveis de tragédias.

Adrian Veidt, o Ozymandias de “Watchmen”, aprofunda essa narrativa. Apresentado como gênio e filantropo, ele se revela o responsável por um massacre global planejado para evitar uma guerra nuclear. Manipula empresas e elimina cúmplices em nome de uma paz construída sobre milhões de mortos. A ficção científica parece incapaz de imaginar um empresário visionário que não recorra à manipulação em massa ou ao autoritarismo. A figura do CEO admirado simplesmente não encontra espaço nesse imaginário.

Dick Jones, vice-presidente sênior da OCP em “RoboCop”, reforça o mesmo viés. Ele usa gangues para eliminar concorrentes, implanta diretrizes secretas em ciborgues policiais e transforma Detroit em um laboratório de privatização extrema. A mensagem é direta: executivos, no futuro distópico, são predadores que tratam cidades inteiras como propriedades pessoais.

Dr. Raymond Cocteau, idealizador da sociedade de San Angeles em “Demolition Man”, completa o panorama. Ele constrói uma utopia higienizada que proíbe praticamente tudo, incluindo sexo físico, tudo sob o argumento de eliminar o crime: Cocteau está à frente de um regime que se apresenta como avanço civilizatório, mas na prática é uma releitura do absolutismo.

No conjunto, esses personagens revelam um traço persistente da ficção científica: empresários não são retratados como visionários admirados, mas como forças destrutivas que confundem avanço tecnológico com controle absoluto. O gênero parece preso à ideia de que o poder corporativo só pode gerar distopia e essa insistência diz tanto sobre suas convenções narrativas quanto sobre as desconfianças contemporâneas que ele reflete.

No conjunto, esses personagens revelam um traço persistente da ficção científica: empresários quase nunca aparecem como visionários admirados. São, isto sim, figuras que confundem tecnologia com dominação. O gênero parece preso à ideia de que o poder corporativo só pode gerar distopia, refletindo mais as desconfianças contemporâneas do que qualquer análise equilibrada sobre inovação.

Essa visão limitada ignora o papel central que empreendedores desempenham na vida real. Os avanços tecnológicos que sustentam a medicina moderna, a comunicação global, a energia limpa e a automação nasceram de indivíduos que arriscaram capital, tempo e reputação para transformar ideias em soluções concretas. Empresas não são fortalezas de tirania, mas motores de produtividade que criam empregos, reduzem custos e ajudam a tirar milhões da pobreza.

É lamentável que Hollywood insista em retratar o empresariado como antagonista automático, associado à ganância e ao autoritarismo. Essa caricatura empobrece o debate e distorce a realidade. Na prática, são justamente os inovadores que financiam pesquisas disruptivas e constroem ferramentas que ampliam a liberdade humana. A ficção científica poderia explorar esse potencial com maior frequência, imaginando futuros em que a iniciativa privada seja sinônimo de progresso em vez de ameaça.

Ao insistir em vilões corporativos, o cinema perde a chance de reconhecer que o espírito empreendedor é um dos pilares do desenvolvimento humano. Falta imaginar um amanhã em que a inovação privada seja vista como esperança para um futuro melhor. Talvez, neste caso, não tenhamos tramas tão excitantes para contar. Mas essas narrativas, com certeza, estarão mais próximas da realidade.

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