No filme Jay Kelly, exibido atualmente pela Netflix, há uma cena em que o personagem que dá nome à película (George Clooney, imagem) está conversando com um amigo que não via há muito tempo. Este conhecido, interpretado por Billy Crudup, é um ex-ator que, anos atrás, perdeu a vaga em um filme para Kelly em um teste. Esse episódio mudou a vida de ambos. O alter ego de Clooney virou uma superestrela; o colega largou a profissão e virou terapeuta de crianças e jovens.
Neste momento, eles estão falando sobre a criação de filhos e das dificuldades envolvidas no processo. O personagem de Crudup, então, fala da ironia que está por trás da paternidade (ou da maternidade): “Apenas somos bem-sucedidos quando nos tornamos irrelevantes”. A frase, de autoria dos roteiristas Noah Baumbach e Emily Mortimer (ele também dirige a produção e ela é uma das atrizes), é certeira como uma flexa.
Minha filha vai completar dezoito anos em 2026 e entrará em uma fase nova em sua vida, começando a cursar a faculdade, ganhando sua própria autonomia. Como vou perceber que fui bem-sucedido em sua educação? Resposta: se meu papel em sua vida for secundário, sem nenhum arroubo de protagonismo.
Não é fácil chegar a essa conclusão. Afinal, durante a infância, os pais são tudo para uma criança. Isso, porém, começa a mudar durante a adolescência. É neste período que as famílias passam por momentos de grande tensão; os jovens se acham adultos e seus pais os encaram ainda como infantes. Curiosamente, os dois lados estão errados: os adolescentes não têm toda a maturidade que julgam ou são tão infantis como os pais pensam.
Os conflitos duram uma temporada que parece interminável. E, quando os desentendimentos arrefecem, os pais geralmente acham que os filhos amadureceram. Isso é verdade. Mas há outra razão para que a paz volte a reinar no lar: os próprios pais aceitaram que suas crianças cresceram e dão mais liberdade a elas. E também entendem que os jovens dificilmente vão aprender com seus conselhos. Eles terão de cometer seus próprios erros para compreender as coisas que os mais velhos ponderam.
Se, a partir de agora, eu e Cristina tivermos protagonismo na vida de Maria Luiza alguma coisa estará errada. Temos que nos convencer que ela precisa abrir seu próprio caminho e deixar espaço para que ela faça isso. Tratei de me colocar nessa mesma perspectiva. Meus pais se tornaram irrelevantes para mim quando eu entrei na faculdade?
Depois de alguma reflexão, cheguei à conclusão que sim. Isso não quer dizer que eu fui menos respeitoso ou presente. Mas eu tratei de resolver meus problemas sem a ajuda deles, tomando aos poucos o caminho da independência.
Não deixa de ser melancólico saber que não sou mais tão necessário na vida dela – assim como não sou há muito tempo na de meu filho mais velho. Encerrar esse ciclo é também reconhecer que a paternidade se realiza de verdade na medida em que abre espaço para a autonomia dos rebentos. O protagonismo que antes era inevitável precisa dar lugar a uma presença discreta, mas firme, como quem acompanha de longe e torce pelo sucesso de cada passo. É nesse equilíbrio entre afastamento e apoio que se revela a verdadeira vitória: ter preparado alguém para caminhar com segurança, mesmo quando já não precisa mais da mão que a guiava.
Respostas de 2
Bravo Aloízio, vou compartilhar com meus filhos que acredito ter sido relevante só o tempo necessário, e agora ser irrelevante chega ser um privilégio pois assisti-los em seu protagonismo é ainda mais prestigioso, agora eles criam os seus rebentos, lindo raciocínio , obrigada
Aluízio, texto impecável! É obrigado por dividir conceitos que, embora sensatos e até óbvios, são difíceis de aplicar. Com dois meninos de 30 e 26 ainda temos fortes recaídas 🙂