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O Solar da Fossa, o embrião da contracultura dos anos 1960

Aluizio Falcão Filho
28 de setembro de 2025

Um artigo recente do jornalista e escritor Ruy Castro me lembrou de uma instituição carioca que desapareceu em 1972 – o Solar da Fossa, um casarão erguido no coração do bairro de Botafogo. Essa construção, localizada na rua Lauro Müller, 116 — no terreno onde hoje está o Shopping Rio Sul — se transformou em um dos símbolos máximos do caldo cultural que moldou os brasileiros na década de 1960 ao se transformar em uma pensão no ano de 1964.

Lá moraram o poeta Paulo Leminski, o ator Cláudio Marzo, as atrizes Beth Faria e Ítala Nandi, além do diretor teatral Aderbal Freire Filho e do carnavalesco Fernando Pamplona, que inclusive deu o apelido ao local. Mas o casarão em tons de rosa-claro e janelas azuis também abrigou estrelas da música e foi uma espécie de embrião do Tropicalismo.  Caetano Veloso e Gal Costa lá fixaram residência, lado a lado com Gilberto Gil, Tom Zé e Nana Caymmi.

O local também foi responsável pelo encontro de três jovens que começaram a trabalhar juntos: os rapazes Luiz Carlos, Guttemberg e José Rodrigues. Eles primeiro formaram um trio, depois reduzido a uma dupla e um artista solo. Os dois primeiros se tornaram conhecidos nacionalmente como Sá & Guarabira; e o terceiro como Zé Rodrix.

Mas lá também residiam sambistas como Zé Keti. Não está ligando o nome à pessoa? Foi ele o autor de “Máscara Negra” (“Ó, tanto riso, ó quanta alegria/ Mais de mil palhaços no salão/ Arlequim está chorando pelo amor da Colombina/
No meio da multidão”). E foi ele justamente o personagem lembrado por Ruy Castro no artigo citado acima. Zé Keti também era um dos residentes do Solar e era conhecido pelos altos decibéis propagados nos momentos de intimidade com sua namorada – uma barulheira que era ouvida por todos os hóspedes da pensão.

Apesar do clima de “liberou geral” vivido no Solar, que originalmente era a sede de uma antiga fazenda, o casarão abrigou um convento antes de se tornar pensionato e se transformar em reduto de jovens artistas e músicos. Era uma propriedade grande: possuía com cerca de 85 apartamentos distribuídos em dois andares e tinha um pátio com gramado e jardim.

O que fez do Solar da Fossa um marco histórico não foi apenas sua arquitetura peculiar e seu espírito boêmio, mas a pluralidade criativa dos moradores que dividiam suas paredes. Imagine o clima de efervescência criativa que havia nesse lugar, com uma concentração improvável de talentos por metro quadrado.

Além dos residentes, havia os agregados: gente que não morava lá, mas estava sempre circulando pelo lugar: Glauber Rocha, Paulinho da Viola, Antônio Pitanga, Ítala Nandi, José Wilker, Darlene Glória, Marieta Severo, Paulo Coelho, Naná Vasconcelos, Tânia Scher, Rogério e Roberto Duarte,  Antônio Waghabi (o Magro do MPB-4), Lennie Dale, Jean Genet, Milton Nascimento, Hélio Oiticica e o futuro senador e ministro Cristovam Buarque.

A convivência diária dessa geração fez do Solar da Fossa muito mais do que uma simples pensão: era um laboratório de ideias, palco de encontros únicos e verdadeiro berço de inovações que definiriam o rumo da cultura nacional nas décadas seguintes.

Após a demolição do Solar da Fossa em 1972, o terreno ficou desocupado durante vários anos, até o início das obras do Shopping Rio Sul na década de 1980. Nesse intervalo, o local permaneceu vazio, enquanto processos burocráticos e disputas judicialmente ligadas à posse do terreno — de propriedade da Santa Casa de Misericórdia — seguiam em andamento. 

O Solar da Fossa, no entanto, ficará sempre na memória de quem hoje está na faixa dos 80 anos de idade e no imaginário dos mais novos. E sua existência foi imortalizada na canção “Panis et Circencis” [sic], de Caetano e Gil, gravada pelos Mutantes e, depois, pelo grupo vocal Boca Livre:

Mandei plantar
Folhas de sonho no jardim do Solar
As folhas sabem procurar pelo sol
E as raízes procurar, procurar
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e em morrer
.”

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