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O que revela a agenda de Lula em 2026

Aluizio Falcão Filho
9 de março de 2026

Nossas agendas mostram não apenas as nossas reuniões de trabalho, mas revelam como gerenciamos o nosso recurso mais escasso: o tempo. Portanto, trata-se de um indicador precioso de quais são as nossas prioridades e, dependendo da frequência, quais são nossos interlocutores mais importantes. Segundo esse raciocínio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem dado primazia à comunicação. Segundo levantamento feito pelo jornal “O Globo”, em seus primeiros 66 dias de trabalho em 2026, o ministro que mais teve audiência com Lula foi o titular da pasta de Comunicação, Sidônio Palmeira.

O governo padece de um problema crônico de comunicação há mais de um ano, com índices crescentes de impopularidade. Normalmente, isso já seria algo complicado. Mas, em um ano de eleições, tem potencial para se tornar um verdadeiro desastre. Portanto, a frequência com a qual o presidente fala com Sidônio é bastante justificada.

Em segundo lugar neste ranking informal está o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, com 14 reuniões. Como este cargo é uma espécie de coordenador do trabalho dos ministérios, essa frequência alta também se justifica.

O que chama a atenção, no entanto, é a pequena assiduidade de determinados ministros no terceiro andar do Palácio do Planalto. De acordo com vários institutos de pesquisas, a segurança pública é o tema que mais preocupa os brasileiros. Portanto, Wellington César Lima, titular da pasta de Justiça e Segurança Pública, deveria ser uma figurinha carimbada na Praça dos Três Poderes. Desde o início do ano, porém, ele só teve três audiências com o presidente.

Esse número de reuniões, por sinal, é igual ao destinado ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, que acumula o ministério do Desenvolvimento, também foi agraciado com apenas três encontros, apesar da importância de seu cargo e de sua pasta.

Outro detalhe deste levantamento também é significativo: onze ministros, até agora, não foram recebidos por Lula neste ano. São eles: Anielle Franco (Igualdade Racial), Frederico de Siqueira (Comunicações), Gustavo Feliciano (Turismo), Luiz Marinho (Trabalho), Macaé Evaristo (Direitos Humanos e Cidadania), Márcio França (Empreendedorismo), Marcos Amaro (Segurança Institucional), Margareth de Menezes (Cultura), Simone Tebet (Planejamento), Waldez Goés (Integração) e Wellington Dias (Assistência Social).

Boa parte dos petistas utiliza como argumento favorável à gestão de Lula a preocupação do governo com projetos sociais e inclusão. É por isso que surpreende o fato de que não ainda não houve em 2026 reuniões de trabalho com ministros como Anielle, Evaristo, e Dias – três nomes importantes nesta seara.

Igualmente é difícil de decifrar o fato de Simone Tebet, do Planejamento, não figurar na agenda de Lula neste ano – especialmente quando se discute a possibilidade de enviar a ministra para disputar um cargo majoritário em São Paulo, concorrendo ao Senado.

É obvio que a agenda oficial não é a única forma que o presidente possui para se encontrar com seus auxiliares mais próximos e que todos estão ao alcance de um telefonema. Além do mais, estamos em uma fase em que vários ocupantes da Esplanada vão deixar seus cargos para disputarem as eleições, o que reduz também o número de audiências no Planalto. Mesmo assim, o diário de compromissos da presidência, mais do que um registro burocrático, funciona como um termômetro das prioridades políticas do governo. E, ao menos até aqui, o termômetro indica que a engrenagem administrativa ficou em segundo plano. Em um ano eleitoral, é compreensível que a comunicação ganhe espaço, mas a baixa interlocução com áreas estratégicas, especialmente aquelas que lidam com temas sensíveis para a população, revela um descompasso difícil de ignorar.

Se a intenção do presidente é reconquistar a confiança do eleitorado, talvez seja necessário reequilibrar esse tabuleiro: comunicar melhor, sim, mas também governar mais de perto. Afinal, nenhuma estratégia de comunicação, por mais sofisticada que seja, substitui a presença efetiva na gestão dos problemas que mais afetam o país.

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