Toda vez que vejo Gabriel Bortoleto pilotando seu Audi nos circuitos de Fórmula-1, me lembro sempre do bólido que ilustra esse artigo, o Carcará, protótipo de linhas futuristas construído em 1966, exatamente sessenta anos atrás. Foi neste ano, por sinal, que o carrinho quebrou o recorde velocidade na América do Sul, chegando a 212,9 km/h (o motor utilizado era um DKW de 1.000 cilindradas, dois tempos, potência de 104 cavalos). Mas o que esses dois carros têm em comum, além da cor prateada?
É que a origem dos dois veículos é a mesma e remonta ao ano de 1932, quando quatro fabricantes alemães (Audi, DKW, Horch e Wanderer) uniram suas forças para criar a Auto Union. É dessa época, por sinal, que o logotipo de quatro argolas, simbolizando as quatro empresas fundadoras, foi criado. Em 1965, a Volkswagen comprou a Auto Union, acabou com os motores de dois tempos e ressuscitou a marca Audi, estava hibernando com a ascensão dos DKWs.
Aqui no Brasil, a Auto Union era representada pela Vemag.
O acordo entre a Vemag e a DKW nasceu de uma iniciativa do empresário Domingos Fernandes Alonso, que viajou à Alemanha no início dos anos 1950 em busca de uma marca disposta a permitir produção local. A Auto Union, então em reconstrução no pós‑guerra, aceitou licenciar seus modelos DKW para fabricação no Brasil. O contrato previa transferência de tecnologia, fornecimento inicial de componentes e autorização para uso da marca, o que permitiu à Vemag iniciar a montagem e depois a produção nacional dos veículos.
A partir desse acordo, a Vemag lançou uma linha que se tornaria emblemática no país. A perua Vemaguet foi a primeira a chegar às ruas, seguida pelo sedã Belcar e pelo jipe Candango. Em 1964, a empresa apresentou o Fissore, modelo de design italiano que buscava introduzir a marca em um segmento mais sofisticado. Todos usavam motores de dois tempos e tração dianteira, características que diferenciavam a Vemag no mercado brasileiro.

A situação começou a mudar quando a Volkswagen adquiriu a Auto Union na Alemanha, em 1964. A nova controladora decidiu encerrar o desenvolvimento dos motores de dois tempos e substituir a linha DKW por modelos Audi com motores de quatro tempos. Como a Vemag dependia totalmente da tecnologia DKW, perdeu sua base técnica e ficou sem perspectivas de atualização de produtos.
Em 1967, a Volkswagen do Brasil comprou a Vemag, absorveu sua fábrica no Ipiranga e incorporou sua rede de concessionárias. A produção dos modelos DKW foi encerrada imediatamente, e os projetos em andamento foram abandonados. A empresa brasileira deixou de existir como fabricante e sua estrutura passou a servir à expansão da Volks no país.
Antes desse desfecho, a Vemag havia criado um dos departamentos de competição mais importantes do automobilismo nacional. O setor surgiu a partir do apoio informal a pilotos independentes que competiam com carros DKW e evoluiu para uma estrutura oficial comandada pelo engenheiro Jorge Lettry. A equipe ganhou reputação por soluções criativas e resultados expressivos em provas de longa duração.
Foi nesse ambiente que nasceu o Malzoni, esportivo de fibra de vidro criado por Rino Malzoni em parceria com Lettry. O carro, leve e eficiente, destacou-se nas pistas e acabou dando origem ao Puma, cuja primeira versão foi lançada com mecânica DKW em 1966. O modelo se tornou referência entre os esportivos nacionais e marcou o início de uma das marcas mais queridas entre os jovens brasileiros.

O departamento de competições da DKW também desenvolveu o Carcará, um veículo criado exclusivamente para quebrar o recorde brasileiro de velocidade na categoria de motores com até mil cilindradas. Com carroceria estreita e aerodinâmica, motor DKW preparado e peso mínimo, o carro atingiu 212,903 km/h em 29 de junho de 1966, estabelecendo um recorde histórico.
O fim da Vemag interrompeu esses projetos, mas o legado esportivo permaneceu como um dos capítulos mais criativos da engenharia nacional. A carroceria de alumínio do Carcará, desmontada após o encerramento das atividades, foi vendida como sucata e, segundo contam os historiadores do mundo automobilístico, provavelmente acabou derretida e transformada em panelas.
O Audi de Bortoleto é herdeiro direto daquela linhagem que começou com a Auto Union e encontrou terreno fértil no Brasil de sessenta anos atrás. Será que ele conseguirá honrar o talento da equipe que criou o Carcará e da década que produziu talentos como Emerson Fittipaldi e José Carlos Pace? O rapaz é bastante promissor e já mostrou sua capacidade. Agora, em uma equipe com estrutura, ele pode buscar sonhos e recordes — assim como fizeram os integrantes da escuderia DKW-Vemag.