Vamos recordar uma frase dita em outubro do ano passado, na cidade de Aracaju, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em um momento de sinceridade total, resumiu o seu estilo da seguinte maneira: “Eu não sou um presidente que fica pensando. Presidente não pensa. Ou faz ou não faz”. Bem, muitos discordariam de Lula. O presidente da República deveria pensar – e muito. Isso não quer dizer que um mandatário deva ficar somente divagando, pelo contrário. O chefe do Poder Executivo precisa agir o tempo todo.
Mas uma coisa não exclui a outra. Este, porém, parece ser o mundo de Lula, um ambiente no qual há espaço apenas para o antagonismo. Neste universo, todos oposicionistas são da extrema-direita; é preciso controlar o conteúdo publicado nas redes sociais; e pobres e ricos deveriam estar em constante confronto. Ou então: alguém que pensa não age.
O presidente, contudo, consegue enxergar o meio-termo de acordo com sua conveniência. Quando o ditador Nicolás Maduro esteve no Brasil em 2023, ele disse o seguinte: “Você sabe a narrativa que se construiu contra a Venezuela, de antidemocracia e do autoritarismo. Cabe à Venezuela mostrar a sua narrativa para que as pessoas possam mudar de opinião”. Como se fosse um Rolando Lero de esquerda, ele sugeriu que a percepção mundial sobre o regime venezuelano seria consequência de uma “narrativa”.
Um mês depois dessa visita, Lula insistia em defender Maduro. “A Venezuela tem mais eleições do que o Brasil”, disse. “O conceito de democracia é relativo para você e para mim”. Depois do pleito presidencial venezuelano, porém, Lula subiu no muro de um jeito que deixaria qualquer tucano das antigas com inveja. Embora não tenha declarado que houve fraude nas urnas, o governo brasileiro cobrou a divulgação das atas eleitorais como sinal de transparência. Mas, ao mesmo tempo, o Brasil se recusou a assinar comunicados internacionais que condenavam o pleito, alegando discordância com o tom adotado.
Sobre a insistência em tentar jogar pobres contra ricos – um de seus mantras favoritos –, Lula voltou anteontem à carga: “Os R$ 300 bilhões que eu gasto com inclusão social, os empresários queriam que estivessem com eles”, disse ele em entrevista ao canal BandNews.
Lula quer o tempo todo pintar o empresário brasileiro como um vilão – aquele que faz qualquer coisa para obter benefício próprio e que sua fortuna é resultado apenas da exploração que exerce sobre os trabalhadores. Talvez essa visão tivesse sentido no passado, especialmente nos tempos do capitalismo selvagem no qual as teorias marxistas foram forjadas. Mas os tempos mudaram e o capitalismo evoluiu. Os empresários de hoje entendem que a prosperidade deve atingir todas as camadas sociais. Caso contrário, o crescimento de seus negócios estará comprometido pelas lacunas sociais.
Lula foi eleito falando em pacificar o país, mas colaborou bastante para tornar o ambiente político mais conflituoso e polarizado (neste caso, é preciso reconhecer, teve enorme ajuda dos oposicionistas). Ao dizer que um presidente não precisa pensar, Lula traz preocupação a quem busca encontrar uma saída para os problemas nacionais. Uma sociedade complexa e dividida como a nossa não pode ser pacificada sem uma análise profunda e uma grande compreensão da nova mentalidade que domina a mente dos brasileiros.
É como disse Abraham Lincoln: “Se eu tivesse oito horas para cortar uma árvore, passaria seis afiando o machado”. O mesmo raciocínio vale para Lula. Um presidente que age sem pensar vai necessariamente cortar árvores com uma lâmina cega, gastando tempo e esforço à toa.