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O que é mais importante em nossas carreiras: sorte ou esforço?

Aluizio Falcão Filho
22 de fevereiro de 2026

Ao longo da história, reflexões sobre a sorte raramente a tratam como um capricho do acaso. Pelo contrário, insistem em descrevê‑la como fruto de uma equação em que preparação, esforço contínuo e oportunidade se combinam. Não por acaso, multiplicam‑se os provérbios que a colocam como a consequência de um processo. Um exemplo disso é aquela máxima que diz: “quanto mais eu trabalho, mais sorte eu tenho”. No entanto, esta frase, que é frequentemente atribuída ao ex-presidente americano Thomas Jefferson, é de alguém que não tinha exatamente o acaso a seu favor.

O verdadeiro autor desta máxima é o ensaísta Coleman Cox, um dos primeiros escritores de autoajuda que se tem notícia. Ele publicou alguns livros sobre o tema entre 1910 e 1930, mas não foi tão afortunado quanto Dale Carnegie, que em 1936 lançou o best-seller “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, ficando rico e ganhando reconhecimento internacional. Cox, ao contrário, trabalhou muito, acumulou pouco e seu nome permaneceu no ostracismo até hoje.

Até onde o fator sorte é importante em sua vida? Será que o acaso foi importante em sua trajetória?

Fiquei pensando nisso após gravar o programa MONEY REPORT TV que foi ao ar nesta semana (a reprise é neste domingo, por sinal; Claro: canal 547; Vivo: canal 579. Às 21h00). Um dos entrevistados, o empresário Heli Dourado, disse que não trabalhava com pessoas que não tinham sorte. Por isso, ao abrir uma vaga e antes de ler o currículo dos candidatos, ele misturava as folhas e fazia duas pilhas. Descartava uma e apenas lia os CVs do montinho escolhido. “Se a pessoa não conseguiu passar no teste de 50% de chances, então é melhor não trabalhar comigo”, disse Dourado.

Um amigo publicitário, ao ouvir essa história, contou algo semelhante. Um colega seu fazia uma pilha com currículos que disputavam uma determinada vaga  e escolhia aleatoriamente um deles, sem ler o que estava escrito no papel. “Uma pessoa com sorte vai seguramente trabalhar muito bem”, justificava-se o autor dessa roleta russa de CVs.

A sorte, muitas vezes, pode fazer uma diferença real na vida de uma pessoa. Um colega de redação na revista EXAME, por exemplo, começou sua carreira como estagiário da editoria de polícia de um jornal. Foi mandado ficar à tarde em uma delegacia qualquer para acompanhar o movimento. Só que, naquela semana, todos os policiais da cidade estavam procurando por um bandido foragido. O facínora foi capturado e um dos PMs o algemou em uma cadeira que ficava ao lado do assento em que estava o meu amigo. Ele aproveitou a chance e fez uma reportagem que ganhou a manchete do jornal. O que aconteceu neste episódio? Pura sorte ou esforço recompensado?

Talvez a resposta correta a essas perguntas não esteja em escolher entre sorte ou esforço e sim em entender como eles se alimentam mutuamente. A cena na delegacia só rendeu a manchete ao meu colega de profissão porque, quando o acaso colocou o bandido algemado ao lado dele, ele sabia o que perguntar, como apurar e como escrever (habilidades cultivadas em muitos plantões anônimos). A mesma lógica vale para o executivo que “passa” no teste de 50%: a moeda decide aleatoriamente se ele entra pela porta; o que o mantém lá dentro, no entanto, é tudo o que ele faz após entrar.

Em outras palavras, a sorte pode disparar o início, mas o esforço determina o desfecho de uma história. Carreiras construídas apenas com base em esforço podem emperrar sem uma oportunidade mínima; trajetórias que dependeram só da sorte geralmente não resistem a mais de uma ou duas crises. Na prática, o que chamamos de sortudo costuma ser alguém que, quando o acaso sorri, já está pronto para sorrir de volta.

Portanto, talvez a pergunta mais honesta não seja se você “teve sorte”, mas se estará pronto quando ela aparecer – ou se saberá reconhecê‑la quando ela se sentar algemada exatamente ao seu lado.

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