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O poder que a leitura tem de mudar nossas vidas

Aluizio Falcão Filho
29 de junho de 2025

A leitura, muitas vezes, tem o poder de nos transportar para o mundo da fantasia. Mas, em outras ocasiões, consegue nos levar para o nosso passado – ou nos transportar para o terreno fértil das ideias e nos obrigar a refletir sobre a própria vida.

Isso aconteceu comigo há alguns dias, quando estava lendo “De amor e trevas”, de Amós Oz, um dos escritores mais influentes do Século 20. Nesta obra autobiográfica, ele narra sua infância e juventude em Jerusalém, entre as décadas de 1940 e 1950, enquanto aborda o contexto histórico da fundação do Estado de Israel.

Um trecho em particular me deixou estupefato. É o seguinte: “Nos quintais e nas ruas impera um silêncio amplo e negro, tão profundo que se pode ouvir o correr das nuvens baixas pelos telhados, roçando o topo dos ciprestes. Pode-se ouvir o pingar da torneira do banheiro e um ruído como um resvalar, ou um raspar muito leve, quase inaudível, captado apenas pelas pontas dos fios de cabelo da nuca, ruído que vem do espaço sombrio que fica entre o armário e a parede”.

Cresci em uma rua na qual havia meninos e meninas da minha idade. Tive sorte neste aspecto: sempre estava cercado de amigos, jogando futebol e taco, subindo em telhados, ouvindo música e andando de bicicleta. Mas eu acordava bem mais cedo que meus amigos. E, aos domingos, perambulava sozinho pela vizinhança até que alguém aparecesse.

Nestes domingos, havia um silêncio absoluto. Minha rua ficava bem perto do início da avenida Santo Amaro, que já naquela época era bastante movimentada e barulhenta. Lembro que ia a uma banca ali perto para comprar o Estadão de domingo para o meu pai. E ficava, às vezes, paralisado pela ausência de carros e de ônibus. A avenida ficava vazia durante alguns minutos e o silêncio me hipnotizava.

Era apenas uma criança, mas percebia que aquilo era algo raro. E gastava algum tempo apreciando aquela falta de ruídos, sem o ronco dos automóveis ou das vozes de transeuntes. Acabei, com isso, me afeiçoando ao silêncio profundo, que só voltei a relembrá-lo durante os primeiros dias da pandemia de Covid, quando todos nós ficamos trancados em casa. Moro em um prédio que fica a duzentos metros da casa em que morei quando criança e vejo o telhado que me abrigou na infância e adolescência da minha varanda. Naquele tempo de solidão forçada, lembrei muito desses momentos em que ficava parado na calçada da Santo Amaro, mesmerizado pela quietude contemplativa que experimentava nas manhãs de domingo.

Foi a narrativa de uma criança israelense, que viveu em Jerusalém, que me transportou no tempo e no espaço. E me fez compreender o quanto eu sinto falta daqueles minutos silenciosos que experimentei na minha infância. De como é importante parar por alguns instantes e contemplar a vida, degustando uma paz que vem da quietude.

Somente um livro tem esse poder. A literatura tem a capacidade de mexer com suas lembranças de uma forma mágica, pois ajuda a construir um universo inteiro em sua cabeça – ao contrário de um filme, por exemplo, que nos impõe imagens e sons escolhidos pelos cineastas. É a escrita que consegue disparar nossa imaginação para fabricar ideias que surgem aparentemente do nada. Ou ajuda a conceber planos para o futuro, desejos que aparecem a partir de palavras que outra pessoa escreveu.

É por isso que cada vez mais eu concordo com uma frase de José Luis Borges, que li em um artigo sobre a ocasião de sua morte, em 1986: “Sempre imaginei que o paraíso seria uma espécie de biblioteca”. Se o escritor argentino acertou em seu prognóstico, ele deve estar se divertindo muito lá no andar de cima.

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