O estereótipo que imaginamos de um chefão do crime organizado é o de um rapaz jovem, coberto de adereços grifados, usando relógios de luxo e com roupas iguais às de estrelas latinas do rap, a bordo de Lamborghinis ou Ferraris. Já me peguei pensando nisso ao cruzar com essas figuras em shopping centers ou restaurantes. Trata-se, evidentemente, de um preconceito arraigado dentro de nós. E as últimas notícias mostram que os mandachuvas do PCC não necessariamente seguem esse figurino. Aliás, esses criminosos estão muito perto de nós – mas nós ainda não percebemos isso.
Tomemos como exemplo a última fase da Operação Carbono Oculto, deflagrada na quinta-feira. A Polícia Federal encontrou quatro fundos que detinham R$ 205 milhões e movimentações em criptoativos de R$ 365 milhões, que se somam a um total de R$ 26 bilhões movimentados pelas organizações criminosas. Estão envolvidas fintechs e gestores de recursos. Na melhor das hipóteses, os profissionais envolvidos nessa lavanderia de dinheiro ilícito são conviventes com o crime. Mas vários são malfeitores e sócios dos PCCs da vida.
Quando as quantidades de recursos movimentados e devidamente lavados ultrapassam os sete dígitos, é sinal de que o crime organizado cruzou as fronteiras às quais estávamos acostumados. Isso significa que muita gente da elite econômica passou a fazer parte deste bando de delinquentes. Portanto, estamos cruzando com essas pessoas praticamente todos os dias, em elevadores, corredores, estacionamentos, restaurantes ou lojas. Muito provavelmente, já fomos apresentados a essas pessoas e apertamos suas mãos. Não seria de se espantar se alguns fossem vizinhos ou conhecidos.
O crime deixou de ser algo que se planeja nas favelas ou bairros distantes. O envolvimento de membros da comunidade financeira (embora ainda circunscritos à periferia deste mundo) mostra que o gigantismo dos criminosos é um problema que precisa ser combatido como uma prioridade pelas autoridades.
A presença de criminosos que não se encaixam no estereótipo tradicional não é exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, investigações federais revelaram figuras aparentemente respeitáveis envolvidas em esquemas de lavagem de dinheiro, fraude e apoio logístico a organizações violentas. Um dos casos mais emblemáticos foi o de Paul Le Roux, que operava um império global de tráfico, armas e corrupção enquanto mantinha a aparência de um empresário de tecnologia. Outro exemplo é o de operadores financeiros ligados ao cartel mexicano de Sinaloa que viviam vidas discretas em bairros de classe média alta, frequentando clubes locais, até serem presos pelo FBI por movimentar milhões de dólares em dinheiro sujo. Esses episódios mostram que o crime de alto nível se camufla com facilidade em ambientes de prestígio e estabilidade.
A sofisticação desses criminosos decorre justamente da capacidade de se misturar ao cotidiano. Nos EUA, investigações sobre esquemas de fraude corporativa revelaram executivos que participavam de conselhos comunitários, faziam doações filantrópicas e eram vistos como exemplos de sucesso profissional.
Esse fenômeno também aparece em investigações sobre lavagem de dinheiro ligada ao narcotráfico. Isso pode ser conferido na série “Ozark” (imagem), na qual um contador vivido pelo ator Jason Bateman se envolve com um traficante e pilota um esquema para legitimar a fortuna gerada pela ilegalidade.
Em cidades como Miami, Houston e Los Angeles, agentes federais já identificaram corretores de imóveis, consultores financeiros e empresários que atuavam como peças-chave na ocultação de recursos de cartéis internacionais. Muitos levavam vidas absolutamente comuns, com rotinas familiares e carreiras estáveis, até que operações do governo revelaram sua participação em redes de lavagem que movimentavam cifras bilionárias. A lição é clara: o crime organizado moderno não depende mais de figuras caricatas, mas de pessoas com aparência de respeitabilidade e acesso a estruturas formais da economia.
Quando olhamos para o que ocorre no Brasil, especialmente com operações como a Carbono Oculto, percebemos que estamos diante do mesmo padrão. O PCC, assim como organizações criminosas internacionais, precisa de operadores que transitem no mercado financeiro, que entendam de fundos, criptoativos e mecanismos regulatórios. Esses agentes não se parecem com criminosos tradicionais e não vivem à margem da sociedade. Eles ocupam escritórios e circulam em ambientes de alto padrão. A expansão do crime para dentro das estruturas formais da economia exige que a sociedade abandone estereótipos ultrapassados e compreenda que o inimigo pode estar vestido de terno, falando com fluência sobre investimentos e se apresentando como um profissional de sucesso.
Uma resposta
Excelente! Importante ressaltar que, além da área econômica, essa bandidagem está, também, fortemente entranhada na política (até porque a abjeta “imunidade parlamentar” os protege) e no judiciário. Vivemos, hoje, uma situação extremamente grave e preocupante. Como cantava Chico Buarque: “Chama o ladrão…”