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O frescobol, uma metáfora perfeita para o mundo corporativo

Aluizio Falcão Filho
26 de julho de 2026

Li nesta semana uma crônica sobre as praias do Rio de Janeiro e a prática do frescobol nas areias cariocas. O texto, de autoria da jornalista Cleo Guimarães e publicado na Folha de S. Paulo, me fez refletir sobre uma característica incomum deste esporte: os praticantes não jogam um contra o outro. O objetivo do jogo é fazer o oponente acertar a bola, mantendo-a no ar durante o tempo que for possível.

Trata-se de uma metáfora perfeita para o trabalho dentro de uma empresa. Aqueles que são parceiros em determinadas tarefas precisam manter a bola ricocheteando nas raquetes e não podem sabotar o colega. O objetivo desta partida corporativa é fazer a empresa crescer e isso só ocorre se houver uma cooperação generalizada.

Mas, infelizmente, nem sempre as coisas funcionam dessa forma.

Quando temos seres humanos envolvidos na equação, tudo pode acontecer. Implicâncias que surgem da vaidade, por exemplo, podem bloquear processos de colaboração que deveriam ser automáticos. Essa má vontade, inclusive, pode evoluir e virar sabotagem disfarçada.

Disputas pela atenção da chefia ou pelo poder são esperadas ou até desejáveis, desde que fiquem dentro das quatro linhas republicanas de um gramado. O problema é que, em determinadas situações, os oponentes batem abaixo da linha da cintura e fazem cara de paisagem, como se nada tivesse acontecido.

Mas existem situações em que há uma ideologia (na falta de uma palavra melhor) que impele alguns chefes de minar os ganhos de seus subordinados. É como se o parceiro de frescobol ficasse jogando a bolinha a dois metros do parceiro para que ele não consiga rebatê-la..

Conheço três exemplos, a começar por alguém da minha família. Essa pessoa conseguia extrapolar todas as metas estabelecidas pela chefia. Como se fosse um discípulo de Dilma Rousseff, o dono da empresa fazia com que essas metas fossem posteriormente majoradas e elevadas a um patamar impossível. Mais tarde, a área desta executiva foi dividida em três. A razão? Estava ganhando demais.

Recentemente, soube de um caso de uma empresa na qual um executivo foi contratado com uma remuneração fixa mínima e uma comissão enorme em cima de suas vendas. Com apetite descomunal, ele passou a vender muito e conseguiu receber uma bela bolada mensal. Até que um dos conselheiros achou que seus ganhos estavam excessivos, mesmo entregando resultados cada vez maiores para o grupo. As regras de remuneração foram mudadas duas vezes até que o executivo resolveu pedir o boné.

Por fim, um caso que ocorreu em uma multinacional. Um amigo era diretor dessa companhia e obteve um resultado três vezes superior à meta estabelecida. Ainda por cima, conseguiu reduzir os custos de sua área em 30%. Para melhorar a situação, aquele foi o melhor ano da empresa, com um EBITDA recorde. Mesmo assim, o bônus deste dirigente foi rigorosamente igual ao do ano anterior, por determinação do CEO.

Inconformado, foi conversar com o chefe. Argumentou que sua performance tinha sido uma vitória e que ele precisava ser recompensado por isso. “Mas a sua vitória é minha derrota”, respondeu o presidente da companhia, encerrando a discussão. Este episódio chegou aos ouvidos da concorrência e três meses depois o executivo tinha outro cartão de visitas. O CEO da empresa não chegou a durar dois anos na cadeira, pois com outras atitudes do gênero conseguiu estressar a equipe inteira.

Esses três casos mostram o mesmo erro fatal: confundir o jogo corporativo com uma disputa de soma zero, na qual o sucesso do subordinado é interpretado como ameaça e não como resultado. É o oposto exato do frescobol. Em vez de manter a bola no ar o maior tempo possível, esses chefes preferem deixá-la cair, mesmo que isso signifique perder o próprio ponto. No fim, os talentos vão embora, resultados minguam e a empresa paga um preço bem mais alto do que qualquer comissão ou bônus. Frescobol se joga a dois. E quem esquece disso, cedo ou tarde, acaba jogando sozinho.

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