Tradicionalmente, os movimentos do cenário internacional nunca tiveram grande influência nas eleições brasileiras. Desta vez, no entanto, os articuladores políticos da direita nacional querem tirar partido da invasão da Venezuela e da captura do ditador Nicolás Maduro. Mas os efeitos nefastos do apoio manifestado às pressas ao tarifaço americano ainda estão na memória de todos. Por isso, a ideia é fazer isso aos poucos.
Em primeiro lugar, os políticos do centro e da direita sabem que a imagem do presidente Donald Trump é controversa em solo brasileiro – e ainda estão ressabiados com a perda de popularidade sofrida pelo governador Tarcísio de Freitas, que anunciou seu apoio ao aumento de tarifas sobre os produtos brasileiros em julho do ano passado. O próprio Tarcísio decidiu falar da invasão do país latino-americano sem mencionar Trump. “A Venezuela agora está vencendo a esquerda e que, no final do ano, o Brasil também vença”, escreveu o governador em suas redes sociais.
Por isso, a ideia é atacar pelas beiradas. O senador Flávio Bolsonaro, por exemplo, já está em negociações para visitar o presidente argentino Javier Milei e o mandatário eleito do Chile, José Antonio Kast, que assumirá seu cargo em março. A estratégia é mostrar que existe um movimento em curso na América do Sul de troca da esquerda pela direita.
Flávio, assim, pretende capitalizar o desgaste da esquerda e, ao mesmo tempo, associar seu maior adversário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, à figura do ditador deposto Nicolás Maduro. Embora nos últimos tempos Lula tenha se afastado de Maduro – especialmente depois da fraude eleitoral verificada no pleito de 2024 –, o presidente brasileiro rechaçou veementemente a ação americana no país vizinho.
Fotos para mostrar que existia uma proximidade entre Lula e Maduro não faltam. Declarações que reforçam uma sintonia entre os dois também (e isso era fruto de discórdia no PT, pois havia um grupo no partido que condenava a arbitrariedade com a qual o venezuelano conduzia seu país). Conforme as atrocidades de Maduro vierem à tona, a sintonia entre os dois líderes latino-americanos de esquerda será explorada até dizer chega.
Por enquanto, os articuladores da campanha de Flávio preferem dar foco à ligação com Milei e Kast e grudar a imagem de Lula a Maduro (o senador Flávio Bolsonaro postou ontem mesmo no Instagram vídeos nos quais o presidente brasileiro tece loas ao ditador venezuelano e diz que há sintonia entre as propostas do PT e do Chavismo). Uma eventual aproximação com Trump vai depender ainda do desdobramento da interferência na Venezuela, especialmente porque o segundo turno está marcado para 25 de outubro. Isso, em termos de política brasileira, é uma eternidade.
Essa aposta dará certo? Ainda é cedo para saber, até porque a construção desta narrativa depende de fatores que escapam ao controle das campanhas de Lula e de Flávio. De qualquer forma, com um cenário regional em constante mutação, os candidatos entram agora em um período no qual cada movimento precisa ser muito bem calculado. Resta observar se o eleitor brasileiro será mesmo sensível ao movimento em favor da direita ou se, como tantas vezes, a política nacional voltará a ditar o ritmo da disputa.