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O custo invisível da grosseria nas empresas

Aluizio Falcão Filho
20 de setembro de 2025

Na última edição de agosto, a revista Fortune publicou um artigo que revela um dado surpreendente: a grosseria no ambiente corporativo custa às empresas americanas cerca de US$ 2,1 bilhões por dia. A estimativa vem de uma pesquisa conduzida pela Society for Human Resource Management, que identificou mais de 208 milhões de “atos de incivilidade diários” nos locais de trabalho dos Estados Unidos. Isso dá uma média de quase 5.000 ocorrências por segundo. Repetindo: por segundo. Portanto, desde o início da leitura deste artigo até agora, cerca de 200.000 atos de rudeza já ocorreram.

Como essa grosseria se manifesta? De e-mails ríspidos até interações hostis. A combinação de vários itens deste menu de rispidez tem impacto direto na produtividade, no moral dos funcionários e no absenteísmo. Segundo Jim Link, diretor de RH da SHRM, esse tipo de conduta está se tornando mais comum, impulsionado por tensões sociopolíticas, estresse pós-pandemia e o fenômeno da “coragem digital” — a tendência de sermos mais rudes online do que pessoalmente (um fenômeno que contamina muitos que navegam pelas redes sociais, incluindo integrantes dos grupos de WhasApp).

Embora o estudo seja focado nos Estados Unidos, os sintomas são facilmente reconhecíveis no Brasil. Ambientes tóxicos, lideranças autoritárias e comunicações hostis também geram desmotivação coletiva, queda de produtividade e um clima organizacional deteriorado. A grosseria, muitas vezes disfarçada de franqueza ou eficiência, mina relações profissionais e compromete resultados.

É bastante triste ver líderes corporativos com o hábito de tratar seus subordinados de forma desrespeitosa. Isso mina o moral de uma equipe e faz a produtividade decrescer de uma forma silenciosa e paulatina, o que deixa essa prática muitas vezes abaixo do radar das áreas de recursos humanos.

Faço parte de uma geração que conviveu pacificamente com chefias abusivas. A receita? Basicamente, engolir sapos. Alguns de meus contemporâneos acabaram replicando o comportamento de suas chefias anteriores e hoje pagam o preço por isso (muitos foram simplesmente cancelados do mercado de trabalho e tiveram de empreender). De minha parte, tive um chefe muito difícil durante anos. Mas decidi aguentar as patadas porque acreditava existir naquele processo uma grande dose de aprendizado profissional, além de um sobrenome corporativo que fez muita diferença em minha carreira.

Quando esse chefe foi desligado da empresa em que trabalhava, tive a oportunidade de refletir sobre quem eu gostaria de ser daquele momento em diante – e decidi não reproduzir o comportamento inflexível daquele que me comandava. Mas consegui entender a importância dos padrões rígidos de exigência e do trabalho árduo, que aprendi com ele ao longo dos anos.

O resultado: minha carreira deu um salto enorme em cinco anos. Acredito que a resiliência que construí por conta deste ambiente hostil de trabalho me ajudou muito para conseguir essa evolução profissional. Também percebi que, na maioria das vezes, o tratamento ríspido que era dispensado à equipe por essa chefia não era algo pessoal. E sim o resultado de um comprometimento muito acima da média. Quando compreendi isso, passei a ser um profissional melhor. A razão? Deixei de me abater pelas broncas e vi nas descomposturas uma oportunidade para entender os meus erros e consertá-los. Isso, contudo, exigiu um grande esforço de autoconvencimento. Além disso, tinha a certeza de que, se fosse demitido, iria me recolocar rapidamente em outro lugar (pode parecer algo bobo, mas a ausência de medo faz diferença danada nessas horas). De qualquer maneira, sei que o meu caminho não é necessariamente uma fórmula universal para as outras pessoas. Portanto, pode não funcionar com os demais.

Estudos como o revelado pela revista Fortune, no entanto, não podem ser utilizados como uma bandeira para exigir um comportamento totalmente diplomático nas empresas. No mundo dos negócios, temos metas para bater e impostos a pagar. Muitas vezes, não podemos nos comportar com delicadeza extrema. Por isso, alguma resistência aos maus modos precisa ser construída. Caso contrário, todos vão navegar com fragilidade exacerbada em suas trajetórias profissionais. E dificilmente vão realizar alguma coisa deste modo.

A grosseria, portanto, não pode ser romantizada como método de gestão, nem demonizada como se toda firmeza fosse abuso. O desafio está em encontrar o ponto de equilíbrio entre exigência e respeito, entre cobrança e empatia. Porque, no fim das contas, o que realmente custa caro às empresas não é a ausência de delicadeza — é a ausência de humanidade.

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