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Neste carnaval, adeus aos óculos

Aluizio Falcão Filho
14 de fevereiro de 2026

Para mim, este carnaval será diferente dos últimos. Pela primeira vez, em muitos anos, não estarei mais usando óculos. Na semana que passou, fiz uma cirurgia a laser com o médico Álvaro Dantas, que corrigiu a minha incapacidade de enxergar de perto e de longe sem o auxílio de lentes. A sensação é incrível: parece que eu voltei no tempo, conquistando uma visão igual à que tinha décadas atrás.

Só percebi agora o quanto a dependência dos óculos me incomodava. Eles viraram uma parte de minha personalidade – como um intruso que entra em sua casa e vai ficando tanto tempo que, pelo hábito, se torna parte de sua família. Hoje, olho para mim mesmo no espelho e consigo reconhecer parte do jovem que já fui. Com as armações, isso não era possível.

Não que eu tenha rejuvenescido: minhas rugas e meus cabelos brancos continuam no mesmo lugar. Mas os óculos decretavam uma velhice incontornável, mascarando qualquer resquício de juventude que ainda existia (e existe) no espírito.

A dependência das lentes me incomodava principalmente à noite. Se buscava algum remédio na madrugada, não conseguia ler o nome dos medicamentos. E quando acordava com alguma ideia, que desejava anotar em meu celular, precisava buscar os óculos para escrever. Agora, desfruto de uma independência deliciosa. Exatamente como na juventude.

Interessante como damos valor a certas coisas apenas na maturidade. Quando somos jovens, enxergamos bem, a elasticidade de nossos músculos é quase infinita e podemos nos empanturrar às três horas da manhã que nada de mal vai nos acontecer. Hoje vejo tudo isso como dádivas que se foram com o tempo. Meus músculos e meu estômago ainda estão à espera de um milagre. Mas meus olhos estão iguaizinhos aos de meus vinte anos de idade.

Essa recuperação da visão 20/20 me deu um ânimo extra. É como se um pouco daquela energia do passado voltasse à ativa, relembrando alguma coisa que ficou perdida na memória. Muitos dos velhos que vejo hoje têm problemas de visão e de locomoção – e, assim, vivem um cotidiano sofrido e chato. Conforme o corpo vai falhando, vamos nos adaptando às limitações e acabamos abraçando uma vida cada vez mais difícil. Não é à toa que muitos idosos são ranzinzas. Eles vivem em um mundo com dor e restrições.

Ocorre que a ciência, hoje, conseguiu evoluir para dar aos idosos mais qualidade de vida. As cirurgias que tiram a dependência dos óculos não são exatamente novas. É algo que já existe há décadas. O método ao qual fui submetido, o Presbyond, foi lançado em 2009, mas são poucos profissionais que dominam a técnica aqui no Brasil, como Álvaro Dantas.

É a segunda vez que dou um drible nos problemas gerados pela idade. A primeira vez foi a colocação de próteses no quadril, quando minhas articulações do fêmur perderam suas cartilagens e andar virou uma provação, com dores que beiravam o insuportável.

E agora, com a visão recuperada, percebo que a vida não precisa ser apenas uma sequência de perdas inevitáveis. Às vezes, basta ajustar um detalhe microscópico — um feixe de laser, um milímetro de córnea — para que o mundo volte a se abrir diante de nós. Recuperar a visão não foi só voltar a enxergar o que está fora, mas reencontrar algo que estava guardado aqui dentro, uma lembrança antiga de leveza e de energia.

O tempo continua avançando, implacável como sempre. Minhas rugas seguem desenhando suas trilhas no rosto, meus cabelos brancos insistem em florescer sem pedir licença e meus músculos… bem, esses continuam negociando comigo a cada manhã, como velhos amigos que já não topam qualquer aventura. Mas, apesar de tudo isso, estou enxergando como um garoto de vinte anos — e isso já é mais do que eu poderia pedir para desfrutar do carnaval neste ano.

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