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Moraes e seu samba de uma nota só: “ataque ao STF”

Aluizio Falcão Filho
8 de março de 2026

Ao longo desta semana, só se falou das mensagens vazadas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal. Moraes negou que tivesse sido o destinatário das missivas de Vorcaro. Mesmo assim, o jornal “O Globo” informou que o diálogo travado entre os dois através de WhatsApp havia sido periciado pela Polícia Federal. Além disso, entoou mais uma vez o seu samba de uma nota só: que os vazamentos eram um ataque ao STF.

Esse discurso, de tão repetitivo, está cansando. A cada crítica que se faz à Alta Corte, ou ao ministro Moraes em particular, a reação é a mesma: uma investida contra o Supremo. Muitas vezes, esse sambinha também vem acompanhado de outra cantilena – a de que os comentários negativos configuram um atentado contra a democracia.

Durante um bom tempo, o ministro Moraes tinha nos militantes de esquerda um esquadrão de defesa pronto para defendê-lo de ataques diversos. Isso ocorria porque esse grupo enxergava Moraes como um paladino da democracia, dada sua atuação firme contra os manifestantes de 8 de janeiro e os responsáveis pela organização da chamada trama golpista.

Essa defesa, no entanto, desapareceu desde que o contrato de R$ 129 milhões entre o Banco Master e sua esposa chegou ao conhecimento público. Os defensores de Moraes minguaram e, hoje, ele somente conta com o espírito de corpo do STF para ampará-lo.

Moraes está acuado e, por isso, pode se tornar ainda mais agressivo do que é normalmente. Não é à toa, portanto, que cogitou tomar medidas extremas contra aqueles que revelaram detalhes indiscretos sobre os rendimentos de sua família. Some-se isso aos indícios de que ele se encontrou mais de uma vez com Vorcaro pessoalmente e trocou mensagens com o ex-banqueiro no dia de sua prisão. O conjunto da obra amplificou a ira do magistrado, enquanto as revelações caíram feito uma bomba junto à opinião pública. O resultado é que sua credibilidade desabou e ninguém mais compra a ladainha de “ataque ao STF”. Não, ministro. A insatisfação do público é mesmo dirigida ao senhor, não à instituição à qual pertence.

Para variar, a Justiça mandou apurar quem vazou as mensagens que Moraes diz serem falsas e que a defesa de Vorcaro afirma terem sido tiradas de contexto. É o caso de se perguntar: por que isso importa? O que seria mais relevante, investigar o vazamento ou o conteúdo deste vazamento? Para a sociedade, com certeza, é muito mais importante saber outros detalhes em torno das mensagens que foram divulgadas, não quem as revelou aos veículos de imprensa.

Essa obsessão por saber a origem dos vazamentos foi bem explicada por um meme que circula no Instagram, no qual um comediante diz que essa situação parece um caso de traição no qual o marido chega em seu apartamento, pega a mulher na cama com outro – e a reação dele é perguntar ao porteiro por que ele deixou o amante subir para sua residência. Vamos dar atenção ao que interessa: saber qual é a verdadeira relação entre Vorcaro e Moraes. Isso, obviamente, não é, nem de longe, um ataque ao Supremo Tribunal Federal.

Neste contexto, é bom registrar dois editorais publicados ontem sobre o caso. A “Folha de S. Paulo disse o seguinte: “Negativas brevíssimas e lacônicas, como as que [o ministro Moraes] tem divulgado não satisfarão o direito dos brasileiros de esclarecer as dúvidas sobre um dos juízes da corte mais elevada. Dissipa-se a cada dia a tolerância da sociedade com as não poucas mostras de autoproteção, soberba de poder”.

Já “O Globo” publicou uma forte crítica a Moraes e ao colega Dias Toffoli: “Ministros do STF não podem se dar ao direito de omitir explicações. Elas em nada prejudicam o papel crucial da Corte na defesa da democracia quando o país sofreu tentativa de golpe de Estado. Este efeito está gravado na história, como O GLOBO já afirmou em editoriais. O fato de Vorcaro e seus cúmplices estarem presos mostra que as instituições funcionam mesmo quando vivem crises. Mas, enquanto tudo não é esclarecido, seria de bom-tom que Moraes e Toffoli se declarassem suspeitos em todas as votações relacionadas ao caso Master. Não podem pairar dúvidas sobre as relações de Vorcaro com figuras tão relevantes da República”.

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