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Milli Vanilli foi um precursor de Madoff, Master e David Bar

Aluizio Falcão Filho
14 de março de 2026

No início da década de 1990, uma dupla de cantores bonitões ganhou fama inesperada e abocanhou até um prêmio Grammy. Meses depois, revelou-se que tudo não passava de uma fraude: os rapazes apenas dublavam o material gravado por cantores contratados pelo produtor da banda. O nome do duo, Milli Vanilli, virou sinônimo de embuste.

Mas só não enxergava a fraude quem não queria. Em entrevistas coletivas, o alemão Rob Pilatus e o francês Fab Morvan falavam com um forte sotaque e não conheciam os rudimentos do idioma inglês. Quando dublavam as canções, no entanto, tinham timbres de voz diferentes, sotaque americano e grande proficiência na língua de Shakespeare. Para piorar, o produtor da banda, Frank Farian, criou uma banda nos anos 1970 (Boney M, que teve vários sucessos) cujo vocalista masculino também não cantava, apenas dublava.

É aquela vontade de acreditar em algo, mesmo que todos os indícios mostrem que se trata de uma mentira.

Este episódio meu veio à cabeça em dois momentos do mercado financeiro: quando eclodiu o escândalo da pirâmide criada por Bernie Madoff e, mais recentemente, com a liquidação do Banco Master.  No caso americano, as cotas do fundo de ações gerido por Madoff só valorizavam, nunca caíam – nem em meio a crises agudas da bolsa de valores, o que é altamente suspeito. Já o Banco Master oferecia uma rentabilidade de 140% sobre o CDI, um índice que nenhuma outra instituição financeira praticava. Muitos investidores sabiam que esses números eram insustentáveis, mas entraram na brincadeira assim mesmo (usando os limites do Fundo Garantidor de Crédito como salvaguarda).

Na semana que passou, mais um episódio à lá Milli Vanilli surgiu: os fabricantes de uma barra de proteína chamada David Bar, famosíssima nos Estados Unidos, passaram a enfrentar um processo coletivo que contesta o perfil nutricional registrado na embalagem do produto (150 calorias por barra, com 28 gramas de proteína). A ação, apresentada em uma corte federal de Nova York, questiona os números da fábrica e seus autores afirmam que as barras teriam mais de 80% de calorias e 400% de gordura acima do informado no rótulo.

O processo baseia-se em uma conta que não fecha: 28 gramas de proteína já representam, sozinhas, cerca de 112 calorias. Isso deixaria apenas 38 calorias disponíveis para todos os outros ingredientes da barra, incluindo fibras, adoçantes, estabilizantes e um tipo de gordura chamado EPG.

Mais uma vez, temos uma fórmula mágica que seduz um grande público, mas é fruto de artifício ilícito. E que todos fazem questão de ignorar as evidências de que existe uma fraude em curso.

Esse comportamento de consumidores e investidores lembra outro fenômeno popular nos campos da economia, sociologia e psicologia: a ignorância estratégica. Isso ocorre nas situações em que indivíduos, empresas ou instituições optam por não buscar ou não reconhecer determinadas informações para preservar eventuais vantagens, evitar responsabilidades ou manter posições convenientes. É o famoso “me engana que eu gosto”.

O conceito ganhou notoriedade com o economista Thomas Schelling (Prêmio Nobel de Economia em 2005), que analisou como a ausência deliberada de conhecimento pode fortalecer negociações e influenciar comportamentos em cenários de conflito. Diferentes pesquisadores, depois, ampliaram o tema para outros campos do conhecimento, mostrando que a escolha de ignorar dados relevantes pode ser tão calculada quanto qualquer outra decisão racional.

No plano individual, a ignorância estratégica surge em relações pessoais e no consumo. Pessoas podem evitar perguntas que temem responder ou ignorar informações sobre impactos ambientais e sociais de produtos para não enfrentar dilemas éticos ou emocionais. A decisão de não saber funciona como uma forma de autopreservação, permitindo manter rotinas e crenças sem enfrentar conflitos internos.

Um padrão atravessa todos esses casos: a disposição de aceitar narrativas convenientes mesmo quando os sinais de alerta estão à vista. A ignorância estratégica funciona como um amortecedor psicológico e financeiro, permitindo que pessoas e instituições sigam adiante sem encarar contradições incômodas. Enquanto essa lógica prevalecer, histórias como as de Milli Vanilli, Madoff, Banco Master e David Bar continuarão a se repetir, embaladas pela mesma combinação de promessa fácil, desconfiança abafada e uma vontade persistente de acreditar no que conforta mais do que no que faz sentido.

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