PATROCINADORES

Memórias da Copa de 1970

Aluizio Falcão Filho
13 de junho de 2026

Alguns anos atrás, um amigo quis me mostrar uma apresentação que tinha feito para seus futuros clientes. Como estava começando seu empreendimento, essas lâminas de Powerpoint eram mais sobre ele e sua trajetória do que sobre o negócio em si. Fiquei surpreso em ver que, logo no primeiro slide, ele mencionava que torcia para um determinado clube.

“Por que você está mencionando o seu time de coração?”, perguntei. Ele me respondeu que o futebol (incluindo aquele escudo em particular) era uma parte importante de quem ele era como pessoa. Confesso que fiquei intrigado. Jamais colocaria minha condição de torcedor como uma característica importante em minha personalidade.

Só me senti totalmente envolvido pelo futebol na minha infância e no início da adolescência. Despertei para o fanatismo durante a Copa de 1970 – e me lembro muito bem de quase tudo, apesar de ser muito pequeno. Essas memórias voltaram à tona na semana que passou, quando eu assisti os cinco capítulos da série “Copa de 70 – a saga do Tri”.

Falar desde momento glorioso é adequado neste sábado, que marca a estreia do Brasil neste certame de 2026? Talvez não, pois pouco se comenta sobre a seleção brasileira atual (tirando a polêmica envolvendo a convocação de Neymar e o corte de Wesley). Alguém sabe de cor a escalação deste time? Poucos têm essa noção. Mas pergunte a qualquer os integrantes do Supremo Tribunal Federal. Praticamente todo brasileiro vai conseguir escalar este time.

Voltando à Copa de 1970: o primeiro jogo do Brasil foi absolutamente marcante para mim. Meus pais convidaram um grupo de amigos para ver a partida contra a Tchecoslováquia em casa, em uma TV de gabinete da marca ABC – A Voz de Ouro. O grupo resolveu fazer um bolão para apostar quem faria o primeiro gol. Eu, pequeninho, quis participar. Pelé? Já escolheram. Rivelino? Idem. Jairzinho? Também. Tostão? Igualmente escolhido. Fiquei tão bravo que marquei o único nome da Tchecoslováquia que consegui entender: Petras.

Pois foi ele, Ladislav Petras, que marcou o tento inaugural do jogo, para desespero de todos que se aglomeravam na sala da minha casa. Passado o choque inicial, alguém se lembrou que eu havia vencido o bolão. Meu pai recolheu todo o dinheiro e me deu uma nota de dez cruzeiros novos, com a efígie de Santos Dumont. Logo depois disso, Rivelino (ainda grafado sem dois “L”) empatou, de falta, e o primeiro tempo terminou com o placar de 1X1.

No intervalo, fui com um adulto até o bar da esquina e me esbaldei: comprei um refrigerante, um chocolate Diamante Negro e um pacote de balas. E voltei com um troco razoável. Bebendo o refri de canudinho e misturando o chocolate com bala Frumelo, assisti o Brasil fazer mais três gols e liquidar a fatura. O terceiro da partida, com direito a chapéu de Jairzinho no goleiro tcheco, é, para mim, o mais bonito de todas as copas.

Me recordo ainda de dois momentos importantes. Um, contra a Inglaterra. Pelé subiu e cabeceou forte, para baixo. O goleiro Gordon Banks pulou e espalmou. Tinha gritado “gol” décimos de segundos antes da defesa. Fiquei sem entender o que havia acontecido por algum tempo até entender que o goleiro inglês havia produzido um milagre com aquela espalmada.

O segundo momento marcante foi perceber a mudança de ânimo dos brasileiros no segundo tempo da final contra a Itália. Saímos do empate por um gol para o placar de 4×1. Ao final, com o gol de Carlos Alberto, outra pintura, fiquei absolutamente eufórico. Fui até à garagem e colei todos os pôsteres que tinha da seleção brasileira no carro do meu pai e o obriguei a dar uma volta no quarteirão comigo.

Quando fomos sair à rua, na Alameda Campinas, uma surpresa: todos os vizinhos estavam do lado de fora, que naquela época era revestida de paralelepípedos. Todo mundo conversando, comemorando, em uma confraternização que nunca vi igual.

Ao lembrar daquela rua tomada por vizinhos eufóricos, percebo que a Copa de 1970 foi um raro instante em que o país inteiro respirou o mesmo ar, vibrou no mesmo compasso e acreditou, ainda que por alguns dias, que a alegria podia ser coletiva. Talvez por isso essas memórias permaneçam tão vivas. Naquela final de 1970, foi como se os problemas políticos do país tivessem desaparecido – o mesmo acontecendo com os desafios pessoais de cada um. Viveu-se um momento mágico, que não se repetiu em 1994 e 2002.

Será que viveremos algo parecido em 2026, mesmo com a taça na mão? Dificilmente. Mas, independentemente disso, é hora de torcer. Vai, Brasil!

COMPARTILHE:

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PATROCINADORES

Leia também

Em breve