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Idosos de alma jovem

Aluizio Falcão Filho
12 de abril de 2026

Dias atrás, li “Ressuscitar mamutes”, de Silvana Tavano, com quem trabalhei na redação de Exame. Trata-se de um livro que disseca a relação dela com a mãe, um exemplo muito bom da escola de autoficção, que tem em Annie Ernaux e Elena Ferrante dois ícones mundiais. Em um trecho, Silvana narra que o momento erm que uma senhora de setenta anos faz um gesto com as mãos típico de uma garota. E comenta que há uma jovem dentro daquela senhora.

Essa imagem é arrebatadora. Por mais que envelheçamos, há sempre um jovem dentro de nós, lutando contra a rabugice que teima em se instalar em nossas mentes. São aqueles momentos em que deixamos a criança interna aparecer e aprontar alguma travessura.

Há aqueles que esperam ter netos para se sintonizar com esse estado de espírito. Mas também existem aqueles que resistem ao passar dos anos e se mantêm jovens de alma. Tentam encarar a vida com leveza e tranquilidade. Não é fácil. O acúmulo de experiências pode trazer uma camada espessa de amargura à personalidade dos mais experientes. Some-se isso a um corpo que começa a ratear por conta da idade e teremos uma receita perfeita para o mau humor constante.

Se a mãe foi um exemplo para a autora de “Ressuscitar mamutes”, meu pai é uma forte referência para mim. Ele sempre foi uma pessoa um tanto calada – um caboclo nordestino habitando o corpo de um intelectual cosmopolita. Isso, no entanto, mudava em uma mesa de bar, com os amigos. Se transformava em alguém eloquente, engraçado e expansivo. Mas agora, aos noventa e dois anos de idade, parece que essas duas personalidades se fundiram em uma só. O resultado dessa mudança é alguém mais leve e mais jovem.

Com o passar dos anos, percebo que essa capacidade de permanecer moço por dentro não depende de truques ou fórmulas. É uma disposição íntima, quase uma escolha diária. Há quem se agarre às próprias dores como se fossem medalhas, enquanto outros preferem cultivar um olhar curioso, mesmo quando o corpo já não acompanha com tanta disposição. Permanecer jovem é dar valor ao que ainda desperta surpresa e a aquilo que ainda faz o coração acelerar um pouco.

Vejo isso no meu pai quando ele conta histórias antigas como se as tivesse vivido ontem. Há um brilho nos olhos que não se explica pela idade, mas pela maneira como ele se relaciona com o mundo. Ele não tenta parecer jovem, mas não se entregou ao peso dos anos. Mantém um interesse genuíno pelas pessoas, pelas conversas, pelas pequenas novidades do cotidiano. É como se tivesse aprendido a aparar as arestas da vida, dando importância apenas ao que realmente importa para ele.

Manter-se jovem não é uma batalha contra o tempo e sim uma forma de caminhar pelos anos que experimentamos. É permitir que a experiência conviva com a curiosidade e que a memória não sufoque o desejo de aprender.

E quando encontro alguém que envelhece assim, com essa mistura de serenidade e frescor, sinto que há um tipo de sabedoria nisso. Algo que não endurece ou se torna cínica. Um saber que preserva a centelha inicial, aquela que um dia nos fez descobrir o mundo pela primeira vez. Como fazer isso? Abrir a cabeça para a procura de coisas novas. E experimentar o ineditismo e a surpresa. Talvez esteja aqui o verdadeiro elixir da juventude.

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