Confesso: sempre achei ser o livro “Drácula”, de Bram Stoker, o início da epopeia dos vampiros no mundo da ficção. Mas, ao ler recentement um artigo no jornal “O Globo”, descobri que estava errado. A publicação de Stoker é, na verdade, o terceiro texto literário publicado sobre vampiros.
Mas como é que surgiram esses livros de terror? Tudo tem a ver com outra publicação: “Frankenstein”, de Mary Shelley. Quando a escritora inglesa era solteira e ainda ostentava o sobrenome Godwin, namorava seu futuro marido, Percy Bysshe Shelley, e passou a frequentar um grupo de jovens intelectuais, como os escritores Lord Byron e o médico John Polidori.
Em 1816, essa turma, juntamente com a meia-irmã de Mary, Claire Clairmont, se reuniu na Villa Diodati, mansão gótica alugada por Byron às margens do Lago Genebra, na Suíça. Todos os jovens fugiam de escândalos que tinham protagonizado na Inglaterra. O clima castigou os britânicos, que passaram dias trancados em casa, consumindo láudano (um tipo de entorpecente), lendo contos de fantasmas e debatendo temas como galvanismo (fenômenos ligados às correntes elétricas), ateísmo e limites da ciência.
Na noite de 16 de junho, Byron propôs um desafio: que cada um criasse uma história sobrenatural aterrorizante. Somente três deles conseguiram fazer isso, a começar pelo anfitrião, que escreveu uma narrativa sobre um jovem que encontra um crânio falante, além do poema “A Sepultura”. Mary, por sua vez, sonhou com um monstro reanimado por energia elétrica, ideia que deu origem a “Frankenstein”, publicado em 1818. Já Polidori escreveu “O Vampiro” e o lançou um ano depois. O personagem principal era Lord Ruthven, claramente baseado na personalidade de Byron. Foi o primeiro vampiro aristocrático e sedutor da literatura moderna.
A trama de Polidori mostra Aubrey, jovem inglês fascinado por Lord Ruthven, um aristocrata charmoso e cruel que seduz mulheres inocentes. Ruthven salva Aubrey de bandidos na Grécia, mas revela-se um vampiro imortal após os dois firmarem um pacto demoníaco. Ruthven, o personagem, incorporava todas as características de Lord Byron: sedutor, culto e amoral.
Após a publicação de “O Vampiro” por Polidori em 1819, outro marco importante na literatura sobre sanguessugas surgiu em 1872: “Carmilla”, de Sheridan Le Fanu. Essa obra antecede “Drácula” em 25 anos e apresenta uma vampira feminina que seduz sua vítima com charme e mistério, estabelecendo elementos que Bram Stoker mais tarde incorporaria em seu romance. “Carmilla” é considerada uma das primeiras narrativas a explorar o erotismo e a ambiguidade sexual no mito do vampiro, além de consolidar o arquétipo da criatura que se infiltra em ambientes aristocráticos e familiares.
Com o sucesso de “Drácula” em 1897, o vampiro se tornou um ícone cultural. A literatura viu uma profusão de títulos do gênero, mas foi no cinema que os sugadores de sangue tiveram maior profusão: nas telas, o personagem ganhou vida longa a partir de “Nosferatu”, em 1922. Depois, outros atores encarnaram o conde em diversas produções: Bela Lugosi, Christopher Lee (imagem) e Gary Oldman. A figura do vampiro foi adaptada para todos os gostos: do terror clássico ao romance adolescente, da sátira à ação.
Essa multiplicidade de abordagens mostra como o este personagem deixou de ser apenas uma criatura do folclore para se tornar um espelho das angústias humanas, como desejo, morte, poder, exclusão. A cada geração, o mito é reconfigurado, ganhando novas simbologias. O vampiro pode ser aristocrata, marginal, herói ou vilão, mas sempre carrega consigo a tensão de parecer humano e, na verdade, trazer um monstro dentro de si.
Curiosamente, enquanto “Drácula” se tornou o nome mais associado ao mito, a ideia original de Polidori — o vampiro como figura sedutora, ambígua e socialmente integrada — foi absorvida e transformada por outros escritores. A imitação, com nome e fama, ficou imortalizada. Já o conceito pioneiro, embora fundamental, foi ofuscado pela força narrativa de Stoker. A cópia ganhou fama e atravessou gerações, mas foi a ideia original, discreta e pioneira, que realmente deu vida ao mito.
