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Como Ayn Rand analisaria Trump, Moraes e Eduardo Bolsonaro?

Aluizio Falcão Filho
9 de agosto de 2025

Não pode haver um acordo entre o dono de uma propriedade e um ladrão; oferecer ao ladrão uma única colher de chá de um jogo de talheres não seria um acordo, mas uma rendição total – o reconhecimento do direito dele sobre sua propriedade. Que valor ou concessão o ladrão ofereceu em troca? E, uma vez que o princípio das concessões unilaterais é aceito como a base de uma relação por ambas as partes, é apenas uma questão de tempo até o ladrão confiscar o resto. Como um exemplo desse processo, observe a atual política exterior dos Estados Unidos.

Não pode haver acordo entre liberdade e controles governamentais; aceitar ‘apenas alguns controles’ é renunciar ao princípio dos direitos individuais e inalienáveis, substituindo-o pelo princípio de poder arbitrário e limitado ao governo, entregando-se, assim, à escravidão gradual. Como exemplo desse processo, observe a atual política interna dos Estados Unidos.

Não pode haver acordo a respeito de princípios básicos ou questões fundamentais. O que você consideraria como um ‘acordo’ entre a vida e a morte? Ou entre a verdade e a mentira? Ou entre a razão e a irracionalidade? Hoje, no entanto, quando as pessoas falam em ‘acordo’, referem-se não a uma concessão mútua e legítima ou a uma troca, mas, precisamente, à traição de seus princípios – à rendição unilateral a qualquer reivindicação irracional ou infundada.

[…] A pergunta: ‘a vida não requer acordos?’, normalmente, é feita por aqueles que não conseguem diferenciar entre um princípio básico e um desejo concreto e específico. Aceitar um emprego inferior àquele que se queria não é um ‘acordo’. Receber ordens de seu empregador sobre como fazer o trabalho para o qual se é contratado não é um ‘acordo’. Não poder ter duas coisas incompatíveis ao mesmo tempo não é um ‘acordo’”.

O texto acima não foi escrito por alguém contrário aos últimos movimentos do presidente americano Donald Trump. A autora é Ayn Rand, uma pensadora citada com frequência por políticos da direita (incluindo o deputado Eduardo Bolsonaro), em artigo publicado em junho de 1962, que foi incluído na compilação “A virtude do egoísmo”.

Sob a ótica de Ayn Rand, tanto o tarifaço de Trump quanto a aplicação da Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, representam conflitos entre princípios fundamentais e concessões arbitrárias. E quais seria esses princípios fundamentais? Rand defendia que liberdade, propriedade e razão são invioláveis, e qualquer concessão a controles estatais ou irracionalidade equivaleria à rendição moral. O tarifaço, ao punir o Brasil por decisões políticas internas, substituiria trocas voluntárias por coerção estatal — uma violação do livre comércio e da liberdade individual. Para Rand, aceitar tarifas como “negociáveis” seria ceder à irracionalidade política.

Já a sanção a Moraes pode ser vista de duas formas. Se justificarmos a decisão de Trump pelo fato de o ministro ter violado direitos fundamentais, então a aplicação da Lei Magnitsky poderia ser vista como uma retribuição racional. No entanto, se a ação do presidente americano tiver sido motivada por pressões ideológicas, seria apenas mais um exemplo de irracionalidade travestida de justiça.

Rand rejeita qualquer “acordo” entre razão e irracionalidade, ou entre liberdade e controle. Se Moraes é visto como usurpador de liberdades, qualquer tentativa de negociação com ele seria, na visão da escritora, uma rendição total — como oferecer uma colher de chá ao ladrão. Esses eventos, portanto, não seriam meras disputas diplomáticas, mas sintomas da erosão dos princípios que sustentam uma sociedade livre.

Ainda utilizando a lógica de Ayn Rand, o que dizer da atuação do deputado Eduardo Bolsonaro, que articulou sanções internacionais contra o Brasil e contra o ministro Alexandre de Moraes? Seria a substituição da razão por interesses pessoais e da liberdade nacional por orientações externas. Rand veria Eduardo como alguém que contraria princípios fundamentais (proteger a economia do próprio país) em nome de um objetivo concreto — a proteção de seu pai, Jair Bolsonaro. Isso não seria um “acordo legítimo”, mas uma rendição à irracionalidade, como a comparação feita na metáfora das concessões a um ladrão: não há troca justa, apenas submissão.

Rand rejeita qualquer tentativa de conciliação entre liberdade e controle arbitrário. Eduardo, ao celebrar sanções contra Moraes e pressionar por mais punições na Europa e no Mercosul, age como alguém que, em nome de um suposto ideal, aceita destruir determinados fundamentos da soberania nacional. Para Rand, isso seria a própria essência da irracionalidade política: usar o poder estatal estrangeiro como instrumento de vingança pessoal, enquanto se abandona o princípio da razão e da troca voluntária. Nesse sentido, sua atuação não representaria uma defesa da liberdade, mas uma traição aos valores que a sustentam.

À luz da filosofia de Ayn Rand, os episódios envolvendo o tarifaço de Trump, as sanções da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes e a atuação de Eduardo Bolsonaro revelam um cenário em que princípios fundamentais — como liberdade, razão e soberania — são sistematicamente substituídos por interesses arbitrários, concessões políticas e vinganças pessoais.

A filósofa insiste em sua obra que não há acordo legítimo entre liberdade e controle, entre razão e irracionalidade. Quando figuras públicas recorrem à força externa para resolver disputas internas, não estariam defendendo a justiça, mas corroendo os alicerces de uma sociedade livre. É isso que desejamos para o futuro do planeta?

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