Em uma gravação recente do programa MONEY REPORT TV, conversava com o megainvestidor imobiliário Sidney Ângulo sobre decisões empresariais e falamos sobre a época em que os juros estavam em 2% ao ano – o que era uma tentação para empresários que precisavam de capital para financiar expansões ou novos negócios. Ocorre que muitos contratos estabelecidos nessa época tinham taxas variáveis. Com o recrudescimento da Selic nos últimos anos, muitas empresas se viram em um corner financeiro, pois o serviço da dívida cresceu substancialmente.
Foi neste contexto que Sidney proferiu a seguinte frase: “Às vezes, o caminho fácil pode ser o mais difícil”. Na hora, essa tirada acendeu um alarme em minha cabeça. Será que poderíamos extrapolar essa ideia para outros campos dos negócios ou mesmo de nossa vida?
As trilhas mais tortuosas sempre nos trazem experiência e endurecem a pele. Além disso, oferecem uma opção de um aprendizado que será útil no futuro. Por isso, podem ser uma opção melhor. Por outro lado, o caminho mais difícil pode ser cansativo e perigoso. O risco envolvido pode ser alto e o tempo que se gasta no percurso pode nos fazer perder oportunidades.
Minha filha, outro dia, me contou que uma de suas professoras na faculdade pediu aos alunos que trouxessem um problema com a respectiva solução e montassem uma ideia de negócio a partir deste raciocínio. Essa parece ser a gênese de vários aplicativos ou serviços que invadiram a nossa vida recentemente e que nos afastam constantemente das dificuldades.
Diante disso, o caminho difícil pode se transformar em artigo raro no futuro. Duvida? Vejamos uma lista rápida de facilidades às quais temos acessos nos tempos atuais, começando pela alimentação. Tínhamos que fazer comida em nossas casas todos os dias. Mas, hoje, temos ferramentas que levam todo o tipo de prato para os nossos lares, com opções de todos os preços.
Alguém se lembra como era difícil arrumar um táxi nas grandes cidades? Pois é. O Uber e similares acabaram com essa dificuldade. Basta alguns toques na tela do smartphone e um automóvel se materializa em poucos minutos à sua frente.
Falando em mobilidade, quando era garoto e comecei a dirigir, tive de memorizar vários trajetos. Quando não sabia um caminho, tinha que apelar para o Guia Quatro Rodas e decorar a sequência de ruas que deveria seguir. Nesses tempos que hoje parecem pré-históricos, errar um caminho novo era uma regra. Hoje, porém, o Waze nos leva a qualquer cantinho da cidade. Não precisamos nem saber o nome das ruas.
Para emagrecer, canetinhas como o Mounjaro e Ozempic ajudam bastante a retirar muitos quilinhos extras. Não resolvem todo o problema, mas dão um ânimo extra através da rapidez com a qual a balança responde.
No passado, tínhamos de mofar em uma fila de banco para pagar nossas contas. Hoje, resolvemos tudo pelos aplicativos; e ainda podemos transferir dinheiro ou usar o cartão de crédito através de nosso celular.
E a fotografia? Tínhamos que comprar um filme, colocá-lo na máquina, fotografarmos uma cena (e rezar para que tudo desse certo), revelarmos o filme e imprimir as fotos. Isso tudo levava dias. Hoje, qualquer celular disparar dezenas de fotos em questão de segundos. Instantaneamente, vemos o que registramos, descartando as fotos que ficaram ruins.
Antes, esperávamos pelo carteiro para receber a correspondência; hoje, ela chega imediatamente pelo WhatsApp ou aplicativos do gênero. Tudo é por demanda, incluindo o entretenimento. Depois do Netflix, uma série de ferramentas de streaming surgiu para nos oferecer absolutamente tudo em termos de filmes e de séries.
Mas toda essa abundância tem um lado menos evidente. A primeira consequência é o cultivo involuntário da preguiça. Quando tudo está a um clique de distância, perdemos o hábito de enfrentar pequenas dificuldades que, no passado, moldavam nossa autonomia. Cozinhar, memorizar caminhos, resolver tarefas burocráticas ou simplesmente esperar eram exercícios de paciência e disciplina.
Outro efeito colateral é a atrofia do aprendizado profundo. Quando o caminho mais fácil está sempre disponível, deixamos de desenvolver habilidades que antes eram consideradas básicas. A tecnologia resolve problemas e desafios, mas também nos rouba a chance de crescer com o processo. Ficamos mais eficientes, porém menos preparados para lidar com imprevistos.
Neste processo, nossos níveis de tolerância caem bastante e acabamos tendo que lidar com uma frustração crônica quando não resolvemos instantaneamente um problema. Ocorre que a vida real não opera no mesmo ritmo dos aplicativos: ela funciona na base da tentativa e erro. Necessita de tempo de maturação e resiliência. Quando nos acostumamos às facilidades frequentes, qualquer obstáculo parece maior do que realmente é. Criamos uma expectativa de fluidez permanente que simplesmente não existe fora da tela do celular.
Por isso, a frase de Sidney ganha ainda mais força: às vezes, o caminho fácil pode ser o mais difícil. A conveniência nos poupa tempo, mas também nos priva da musculatura mental e emocional que só se desenvolve com o esforço. O desafio, hoje, talvez seja encontrar o equilíbrio e aproveitar o que a tecnologia oferece sem abrir mão da capacidade de caminhar com as próprias pernas. Afinal, conforto é ótimo, mas não pode custar a nossa independência.
Uma resposta
Porisso, sempre digo que “O Sucesso está no Equilíbrio”!
Belo artigo, como sempre, caro Aluizio!!!
Abraços calorosos! Robert Wong 👍🙏❤️