Uma frase atribuída a Tancredo Neves garante que “em política, a versão é mais importante que o fato”. Curiosamente, não há uma prova cabal de que o presidente brasileiro tenha dito isso em sua carreira de décadas no Executivo e no Parlamento. Portanto, a máxima pode ser, por definição, uma narrativa que não corresponde à realidade.
Essa reflexão me veio à cabeça nesta semana, quando li uma coluna publicada por jornal de grande circulação nacional. No texto, a articulista contava que Marilyn Monroe havia sido sepultada em uma gaveta no cemitério Pierce Brothers, em Los Angeles. E que o publisher da revista Playboy, Hugh Hefner, havia comprado o jazido em cima do da estrela e pedido para ser colocado no caixão de costas para a tampa. Assim, as posições dos cadáveres simulariam um ato sexual, digamos, eterno.
A história seria de um mau gosto tão profano que me intrigou. Fiz uma busca rápida e descobri que Hefner, de fato comprou uma gaveta contígua à de Marilyn. Só que a do fundador da Playboy fica ao lado da atriz de “Quando Mais Quente Melhor”.

Essa não é a primeira fake news envolvendo celebridades do passado. No quesito morbidez, há um mito de que Walt Disney teria sido criogenicamente congelado após sua morte para ser ressuscitado no futuro. Na verdade, o criador de Mickey e Pato Donald foi cremado e suas cinzas estão no Forest Lawn Memorial Park, em Glendale, Califórnia (lá também está enterrado Michael Jackson). A ideia do congelamento surgiu por causa do fascínio de Disney por tecnologia futurista, mas nunca aconteceu.
Ainda sobre temas macabros, há um mito que revive, de tempos em tempos, sobre o filme “O Mágico de Oz”. Durante uma cena, seria possível ver um membro da equipe ou ator enforcado ao fundo. Mas o que de fato aparece é uma ave do estúdio que estava solta no set. A lenda surgiu com a baixa qualidade das cópias antigas do filme.
A respeito deste filme, o álbum “Dark Side of the Moon” teria sido composto pelo grupo Pink Floyd para servir de uma trilha sonora alternativa às aventuras de Dorothy, Espantalho e Homem de Lata na Terra de Oz, sincronizando faixas do disco e cenas da película. A banda já refutou essa narrativa inúmeras vezes, mas a lenda se tornou mais popular que desmentido.
Para finalizar: muitos acreditam que Albert Einstein foi reprovado na escola em matemática. A realidade: ele sempre foi um dos melhores alunos na matéria desde pequeno e essa lenda urbana surgiu de uma má interpretação de suas notas escolares.No ensino suíço da época, a nota máxima era 1 e a mínima era 6 (o oposto de outros sistemas). Isso, certamente, gerou interpretações erradas sobre o criador da Teoria da Relatividade.
Além disso, ele não passou no vestibular da Escola Politécnica de Zurique. O fracasso, no entanto, foi explicado por suas notas baixas nas matérias de humanas. O resultado obtido em matemática e física, contudo, impressionaram a banca examinadora. Einstein também não gostava da pedagogia rígida de algumas instituições e acabava se desinteressando pelas aulas tradicionais, preferindo aprender sozinho e avançando muito além do currículo escolar.
Versões são como sombras projetadas pelos fatos (como sugeriu Platão): podem ser distorcidas, ampliadas ou suavizadas conforme a luz que as ilumina. No universo pop, político ou científico, elas muitas vezes ganham vida própria, mais sedutoras que a realidade. Na prática, são ótimas para repeti-las e difíceis de serem checadas. Cabe a nós, leitores e contadores de histórias, decidir se vamos apenas consumir essas narrativas ou também questioná-las. No final das contas, a verdade às vezes não tem o mesmo carisma de uma versão bem contada. Quando isso acontece, a realidade acaba sendo empurrada para debaixo do tapete.
Publicado em 12/10/25