Na fogueira de vaidades que observamos diariamente nas redes sociais, há muita gente que faz questão de ostentar riqueza e beleza diariamente. Mas, em determinados casos, há um elemento comum nestas postagens. Pode-se perceber que há internautas que estão se vingando do passado através de fotos e vídeos postados no mundo digital.
Como assim?
Há quem poste com frequência viagens em jatinhos particulares, deslocamentos em helicópteros ou passeios em Rolls-Royce. Alguns destes internautas são pessoas que sofreram grandes dificuldades financeiras em suas infâncias – e superaram em muito as adversidades do passado. Outras fazem uma espécie de ode ao condicionamento físico e foram indivíduos rechonchudos no passado. Por fim, vejo também amigos e amigas que fazem selfies caprichadas, ressaltando ângulos favoráveis – eles e elas eram patinhos feitos na adolescência e se transformaram em adultos que chamam a atenção pela beleza.
As redes sociais propiciam esse tipo de redenção e servem para curar feridas de outrora. Porém, no afã de mostrar à comunidade online o quanto mudaram, muitos desses internautas exageram. E esse excesso acaba incomodando.
Temos de lembrar que temos três tipos de seguidores no universo digital – os indiferentes, os admiradores e os invejosos. Este último grupo é perigoso e nos observa em silêncio, colhendo elementos para um possível ataque no futuro. Neste caso, se exagerarmos em nossas demonstrações de vaidade, o cancelamento diante de um eventual deslize poderá vir a galope. E ser cancelado pode ser um dos maiores pesadelos da vida moderna.
Ocorre que, quando estamos tentando nos vingar de um passado que desejamos esquecer ou superar, somos dirigidos por emoções que nos manipulam inconscientemente. Nesses casos, acabamos frequentemente pesando a mão em situações nas quais deveríamos agir discretamente.
Evidentemente, nem todos os que se exibem querem acertar as contas com o que aconteceu ontem. Há pessoas que desejam repartir com os outros tudo aquilo que vivem por outras razões.
Mas, nos dias de hoje, ceder aos impulsos da vaidade pode nos colocar em situações difíceis, especialmente se nos expusermos demais. A maioria esmagadora dos casos de cancelamento online é de pessoas que abusou do direito de aparecer. E a alta frequência pode gerar postagens inconsequentes ou impulsivas, que vão trazer problemas.
A vaidade em excesso, inclusive, pode afetar o nosso julgamento – até porque existe uma grande chance de partimos do princípio da infalibilidade. Assim, se somos infalíveis, não nos questionamos. E se estivermos em um processo de acerto de contas contra o passado, corremos o risco de distorcer o que percebemos da vida através de nossos filtros particulares.
Cada um, obviamente, sabe de si. Mas precisamos tomar cuidado para evitar que o mundo virtual se torne mais importante que nossa vida real. É no planeta Terra que experimentamos as verdadeiras emoções e realizações, sem ilusões ou enganos. No mundo físico, aprendemos com sangue, suor e lágrimas – e construímos o nosso caráter para valer. É a partir dessa vivência que construiremos nosso legado, a única forma de imortalidade com a qual podemos sonhar. Pelo menos, por enquanto.
Uma resposta
Perfeita reflexão, Aluizio. Na Sociedade da Aparência, o desespero por reconhecimento substitui o autoconhecimento, fonte de paz e do verdadeiro poder. São multidões buscando os frágeis 15 minutos de fama antevistos por Andy Warhol. Mas, enquanto no mundo dos adultos prevalece, nesses casos, a exposição ao ridículo, é no mundo das crianças e adolescentes que o quadro se apresenta, muitas vezes, mortal. Há um cenário pedindo articulação urgente de pais, educadores, legisladores, terapeutas, jornalistas, estrategistas, profissionais de comunicação e outros. Há muito que fazer, e a hora é agora.