Um amigo cedeu à combinação alto luxo + preço acessível dos carros chineses e comprou um modelo top de linha. O automóvel é um prodígio em recursos digitais e, a cada dia que passa, ele aprende uma nova funcionalidade. Uma das primeiras ferramentas que tomou conhecimento é uma espécie de dispositivo que combate o sono do motorista. O veículo tem uma câmera voltada para o condutor. Caso ele boceje, pisque demais os olhos ou tombe a cabeça, um mecanismo de inteligência artificial começa a conversar com quem está ao volante. A ideia é, com a conversa, afastar o sono – ou aconselhar o piloto a encostar o bólido.
Essa nova geração de veículos está antecipando o que será a próxima onda da internet. Já estamos na quarta versão da web, na qual a rede está agindo por nós através das ferramentas de inteligência artificial e dos agentes de IOT (a chamada “internet das coisas”, que administra a nossa vida comandando nossas compras e a atividade dos eletrodomésticos). A internet 5.0 será a web sensorial/emocional. Os aplicativos passarão a interpretar seus sinais vitais e expressões corporais para detectar como estamos nos sentindo. E, com isso, antecipar as nossas necessidades.
A Web 5.0 deve atuar como uma camada invisível que envolve cada momento da vida cotidiana, antecipando demandas e carências antes mesmo que as verbalizemos. De manhã, sensores que monitoraram o nosso sono irão preparar o ambiente para um despertar gradual e natural. No trabalho, os aplicativos do celular podem detectar momentos de ansiedade pelo padrão fisiológico do usuário e reorganizar a agenda para reduzir sobrecarga. Na saúde, monitores contínuos terão a capacidade de identificar variações no organismo antes que qualquer sintoma apareça, transformando a medicina em algo predominantemente preventivo.
No trânsito, o veículo vai ler o estado emocional do motorista e criar um novo cenário, adaptando rota, velocidade e ambiente sonoro de forma autônoma. No consumo, um agente digital vai conhecer os padrões de comportamento impulsivo e pode tanto proteger o usuário quanto explorá-lo (dependendo de quem controla a plataforma). Na educação, o ensino pode se adaptae em tempo real ao estado cognitivo e emocional do aluno, eliminando o modelo de aula uniforme. Em todos esses cenários, o denominador comum será o mesmo: uma tecnologia que acumula conhecimento mais profundo e detalhado sobre o indivíduo do que qualquer pessoa próxima jamais terá.
Tudo isso pode gerar uma dependência enorme dessas ferramentas e, com isso, corremos o risco de perder a autonomia e a iniciativa. Esse processo, diga-se, já começou. São poucos os que, por exemplo, lembram os números dos telefones de amigos ou familiares. Temos também aqueles que desaprenderam qualquer caminho e usam o Waze para servir de guia em qualquer trajeto. Neste sentido, pode-se dizer que sou um usuário rebelde: estou sempre discordando do aplicativo e seguindo a rota estabelecida em minha cabeça. O placar é mais ou menos equilibrado: às vezes, chego antes da previsão do Waze; em outras ocasiões, não.
Talvez eu seja um usuário indomável dessa nova onda da web e não aceite todos os confortos que as ferramentas digitais tenham a oferecer. Nesse espírito insurgente e insubmisso, vou ser “old school” em determinadas atividades, como escolher minhas próprias compras ou refeições. Quero exercer meu direito de imprevisibilidade e não seguir uma rotina programada pela IA. Nessa altura do campeonato, acredito que a vida deva ser recheada de surpresas e novidades. Quanto menor a rotina, melhor.
Quando disse isso a um amigo, ele rebateu. Segundo ele, a boa notícia é que poderemos programar essa web 5.0 a fazer exatamente isso: nos surpreender com novidades que tenham a ver com nosso perfil biológico e emocional. Era só o que faltava: essas máquinas vão me conhecer melhor do que eu me conheço…