Quando a Lei Cidade Limpa foi implementada, em 2006, fui uma das poucas vozes que se manifestou contra à iniciativa do então prefeito Gilberto Kassab. Escrevi, inclusive, que se Kassab fosse prefeito de Nova York, a região de Times Square, que atrai milhões de turistas anualmente, teria de ser extinta. Caso fosse alcaide de Tóquio, o mesmo ocorreria com Roppongi, local também conhecido por seus painéis luminosos gigantescos.
A justificativa para a Cidade Limpa foi a profusão de outdoors clandestinos na cidade. Em vez de combater a propaganda ilegal, porém, Kassab resolveu remover todos os painéis publicitários de São Paulo e extinguiu milhares de empregos em uma só tacada. No lugar dos outdoors, entrou um oligopólio que controla a publicidade em relógios de rua, abrigos de ônibus e painéis digitais.
Hoje, no entanto, já se pensa em flexibilizar essa lei, conforme proposta que circula na Câmara Municipal. A primeira iniciativa que questiona a concentração de mídia exterior é o projeto aprovado anteontem na Câmara de Proteção à Paisagem Urbana (órgão que fiscaliza a aplicação da Lei Cidade Limpa), na esquina das avenidas São João e Ipiranga, no centro da capital paulista. Foi permitida a instalação de quatro painéis gigantes de LED no local, que vão intercalar conteúdo informativo, cultural e educativo com veiculações comerciais.
Essa iniciativa tem o nome oficial de Boulevard São Paulo, mas já é conhecida pelo público como Times Square paulistana. A ideia do projeto partiu da Fábrica de Bares, holding que controla o Bar Brahma, instalado no local, além de casas importantes como o Riviera e o Blue Note, entre outras.
Na Câmara, discute-se estender essa ideia para outros pontos da cidade, como as avenidas Paulista e Cidade Jardim, além do bairro de Santa Ifigênia, no centro. Com isso, além de uma aparência futurista à cidade, geraríamos outros bolsões de turismo e, com isso, geraríamos receitas não apenas provenientes de anúncios nos painéis.
A comparação com outras metrópoles ajuda a entender o potencial econômico de iniciativas como essa. Times Square, por exemplo, é responsável por uma fatia expressiva da economia nova‑iorquina. A região recebe mais de 50 milhões de visitantes por ano e movimenta bilhões de dólares em consumo, hospedagem, entretenimento e publicidade. Estudos da Times Square Alliance mostram que o distrito gera dezenas de milhares de empregos diretos e indiretos, além de concentrar uma das maiores receitas de mídia exterior do planeta. A vitalidade econômica do entorno é tão grande que o bairro funciona como uma espécie de cartão de visitas permanente da cidade, impulsionando setores que vão do varejo à gastronomia.
Roppongi, em Tóquio, segue lógica semelhante. A área se consolidou como um polo de entretenimento, tecnologia e cultura, com forte presença de empresas internacionais, museus, restaurantes e centros comerciais. O complexo Roppongi Hills, inaugurado no início dos anos 2000, transformou a região em um dos motores econômicos da capital japonesa. O distrito atrai milhões de visitantes anualmente e gera receitas significativas em turismo, serviços e publicidade digital. A presença de painéis luminosos e de uma estética urbana vibrante se tornou parte da identidade local, contribuindo para o fluxo constante de pessoas e para a valorização imobiliária.
Esses exemplos mostram que espaços urbanos capazes de unir circulação intensa, apelo visual e oferta cultural tendem a se transformar em polos de dinamização econômica. A criação de áreas semelhantes em São Paulo pode estimular cadeias produtivas que vão muito além da publicidade. Restaurantes, bares, hotéis, lojas, casas de espetáculo e serviços diversos se beneficiam de ambientes que atraem moradores e turistas. A cidade ganha vitalidade e o centro, tantas vezes negligenciado, pode recuperar um protagonismo perdido há décadas.
A proposta do Boulevard São Paulo aponta nessa direção. Se bem executada, pode inaugurar um ciclo de renovação urbana que combine modernização estética com geração de renda. A ampliação do modelo para outras regiões, como a Paulista ou a Cidade Jardim, pode criar corredores de interesse turístico e cultural, capazes de fortalecer a economia local e ampliar a percepção de São Paulo como uma metrópole contemporânea.
Já está mais que na hora de rever uma lei que limita o potencial econômico da cidade. E o perigo de uma poluição visual além do razoável? É só fazer punir quem exagerar. Simples assim.