Como se sabe, Tim Cook, o CEO da Apple, pediu para sair e o conselho administrativo da empresa aprovou sua decisão de forma unânime. Em seu lugar, entrará John Ternus, um engenheiro que trabalhou no desenvolvimento dos principais produtos da companhia. Vai resolver o dilema da empresa, que perdeu o protagonismo desde a morte de Steve Jobs? Provavelmente não.
Sob a batuta de Jobs, a Apple ditava as mudanças do mundo digital. Desde que Cook assumiu como CEO, no entanto, a empresa apenas correu atrás das tendências ditadas pela concorrência. É bem verdade que ninguém criou novos paradigmas. O que se viu neste mercado foi uma melhoria contínua de softwares, memória e câmeras.
A grande mudança veio de fora do mercado de smartphones, com a introdução da Inteligência Artificial. Mas nem isso serviu de matéria-prima para que a Apple desse uma volta por cima. Uma das principais críticas a Cook era justamente o atraso em colocar a IA no cardápio dos produtos da Apple. A incorporação da Inteligência Artificial à Siri, por exemplo está muito atrasada – algo que nunca se viu desde que a empresa foi fundada, ainda nos anos 1970.
Ternus pode até ser um bom profissional – assim como Tim Cook era considerado competente pelos analistas de tecnologia –, mas ele tem um problema em comum com seu antecessor: ele não é Steve Jobs. Não tem a mesma criatividade e a obsessão por inovação que o faziam quebrar paradigmas e colocar toda a concorrência de cabelo em pé a cada novo lançamento da empresa.
Lembremos que a Apple lançou a tele sensível ao toque e o ambiente gráfico de navegação muito antes de qualquer competidor, simplesmente porque Jobs teve essa visão e mandou a equipe técnica se virar até entregar o que ele havia criado. Só que esse brilhantismo vinha com um pacote de outras características que hoje pegam muito mal em qualquer corporação: arrogância, temperamento explosivo e inflexibilidade.
A genialidade de Jobs tinha um contrapeso na prepotência. Por isso, a Apple de hoje é um lugar mais amigável para se trabalhar do que o de vinte anos atrás. Em compensação, é uma companhia que deixou de ser revolucionária e sofre pressões para usar a IA como estão fazendo concorrentes como a Microsoft e Google.
A mudança no comando pode trazer ajustes internos e algum impulso inicial, porém não deve recolocar a Apple na posição de referência absoluta que ocupou no passado. A empresa continua poderosa, lucrativa e influente, embora já não exerça o papel de força criativa que orienta o setor.
John Ternus assume uma companhia madura e eficiente, mas distante da energia inventiva que marcou sua fase mais revolucionária. Esse tipo de impulso não nasce de reorganizações administrativas nem de metas trimestrais. Ele depende de visão, algo que não se transmite por sucessão e não se produz por demanda.
Steve Jobs possuía essa capacidade de enxergar adiante, mesmo carregando características que hoje seriam difíceis de aceitar em qualquer ambiente corporativo. Seus sucessores herdaram uma estrutura sólida, mas não o olhar que permitia antecipar movimentos e criar novos mercados.
Genialidade, porém, não se aprende. E o que a Apple precisa, agora, é de alguém que rompa as barreiras do convencional. Caso contrário, será mais uma fabricante de hardware com design arrojado. Somente isso não vai satisfazer clientes e investidores.