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A relação direta entre o e-commerce e o trânsito infernal de SP

Aluizio Falcão Filho
1 de março de 2026

É um tremendo clichê reclamar do trânsito da cidade de São Paulo, mas nesta semana os paulistanos enfrentaram verdadeiras provações no asfalto. Na quarta-feira, por exemplo, a capital paulista registrou seu pior congestionamento do ano, com 1.149 km de lentidão simultânea às 18h30, segundo a CET. Esse pico representa mais de três vezes a média de dias úteis sem incidentes em 2025, que ficou em torno de 359 km nos primeiros meses do ano.

Muitos poderão dizer que as chuvas vespertinas contribuíram para o congestionamento pesado. Mas o trânsito foi caótico durante toda a semana, desde cedo até à noite. O que pode estar contribuindo para os engarrafamentos colossais, além do excesso de veículos nas vias paulistanas? São cerca de 400.000 novos veículos despejados anualmente nas ruas da metrópole. Mas os engarrafamentos são tão enormes que o volume de automóveis parece ser bem maior.

Há, contudo, três fatores que podem ter contribuído bastante para que os carros percam mais tempo no tráfego paulistano – e são três razões que devem ter passado despercebidas pelo crivo das autoridades que planejam a mobilidade urbana.

A primeira delas é a expansão desenfreada do e-commerce.

O avanço acelerado do comércio eletrônico em São Paulo tem ampliado a pressão sobre o trânsito da capital, impulsionado pelo aumento das entregas de última milha. Vans e motos de aplicativos já respondem por uma fatia estimada entre 10% e 15% do tráfego adicional nos horários de pico. Em 2025, dos 438,9 milhões de pedidos feitos no país, cerca da metade se concentrou na região metropolitana, sobrecarregando corredores como a Marginal Tietê e a Avenida Paulista. Nessas vias, o fluxo de veículos de entrega cresceu entre 20% e 30% desde 2024, contribuindo para recordes de lentidão, como os 1.149 quilômetros registrados na última quarta-feira. Mas experimente avaliar qualquer rua dos Jardins, de Pinheiros ou do Itaim Bibi que está parada. Invariavelmente, haverá um carro de entrega estacionado onde não deve e atrapalhando a circulação de veículos.

Esse aumento de tráfego também pressiona os custos logísticos, que sobem até 20% devido a atrasos e maior consumo de combustível, ao mesmo tempo em que expõe os limites da infraestrutura urbana. Iniciativas como o programa de entregas noturnas da CET e a expansão de hubs de distribuição urbana surgem como alternativas para aliviar o problema. Essas medidas têm potencial para reduzir deslocamentos diurnos entre 30% e 50%, diminuindo a sobrecarga nos horários de maior movimento.

A segunda razão é a expansão do mercado imobiliário, que multiplicou as construções de prédios comerciais e residenciais em várias vias de alta circulação. Cada construção acaba interditando uma faixa de rolagem e isso torna o trânsito ainda pior.

Essa expansão tem alterado de forma visível a dinâmica urbana, especialmente em corredores de alta valorização como Faria Lima, Berrini, Chucri Zaidan e Marginal Pinheiros. O ritmo de lançamentos e obras cresce em paralelo ao adensamento dessas regiões, impulsionado pela demanda por novos empreendimentos. Esse movimento intensifica a pressão sobre a infraestrutura viária, que já opera próxima ao limite em horários de pico. A cidade registra rotineiramente mais de 600 quilômetros de lentidão nos dias mais críticos e qualquer redução de capacidade nas vias deve amplificar esse cenário.

As obras privadas têm participação direta nesse agravamento. Um levantamento com dados da CET mostra que São Paulo registrou 5.418 interdições oficiais apenas no primeiro trimestre de 2023, o equivalente a uma nova intervenção a cada 24 minutos, número 46% maior que no mesmo período do ano anterior. Cada construção que ocupa uma faixa de rolamento — seja para tapumes, caminhões ou içamento de materiais — reduz a fluidez em vias já saturadas, criando gargalos sucessivos e prolongando os congestionamentos.

Por fim, temos uma infinidade de automóveis de aplicativos de mobilidade que param em fila dupla (ou em locais em que é proibido estacionar). Cada parada indevida provoca pequenos e rápidos congestionamentos, suficientes para deixar os motoristas à flor da pele. Essa prática, embora rápida, interrompe o fluxo natural do trânsito, obriga outros motoristas a desviar e cria pontos de estrangulamento repentinos nas vias. Em ruas estreitas ou muito movimentadas, alguns segundos de bloqueio são suficientes para gerar um efeito cascata que se espalha por quarteirões inteiros.

Esses pequenos engarramentos, repetidos inúmeras vezes ao longo do dia, alimentam um clima constante de irritação entre os motoristas. A sensação de que o trânsito trava “do nada” aumenta o estresse e reduz a tolerância no volante, contribuindo para um ambiente mais hostil e impaciente. Além disso, a imprevisibilidade dessas paradas dificulta o planejamento das rotas e compromete a fluidez geral da cidade.

A persistência desses três vetores — entregas cada vez mais rápidas, obras que avançam sobre o espaço viário e paradas irregulares que se multiplicam — indica que São Paulo pode estar caminhando para um ponto de saturação em que o trânsito deixa de ser apenas um incômodo e passa a comprometer a própria funcionalidade da cidade. Se nada mudar, a tendência é que o tempo perdido no deslocamento cresça ano após ano, que os custos logísticos se tornem proibitivos e que a mobilidade urbana se transforme em um fator de desigualdade ainda mais profundo.

Ao mesmo tempo, esse cenário pode forçar uma inflexão: restrições a obras em corredores críticos e novas regras para entregas, embarque e desembarque podem deixar de ser alternativas e se tornar inevitáveis. A cidade terá de decidir se quer continuar reagindo ao caos ou se está disposta a redesenhar sua lógica de circulação antes que o colapso se torne rotina.

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