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A preocupação com a segurança une a América Latina

Aluizio Falcão Filho
2 de junho de 2026

Muitos anos atrás, estreou no mercado um portal chamado StarMedia, em parte financiado por um fundo de private equity administrado pelo então Chase Manhattan. Seu slogan era: a maior comunidade da Internet na América Latina. Naquela época, acabei conversando em um evento social com a gestora deste fundo, uma executiva chamada Susan Seagal. Ela me perguntou o que eu achava da StarMedia. Retruquei que o portal era bem-feito, mas que duvidava muito do conceito de uma comunidade latino-americana. Ponderei que brasileiros eram muito diferentes de argentinos, que possuíam um perfil diverso dos chilenos, que pouco tinham em comum com os colombianos e assim por diante. Mantenho essa opinião até hoje.

No entanto, embora esses povos tenham diferenças entre si desde os tempos coloniais, os países do continente enfrentam atualmente desafios semelhantes, a começar pelo combate ao crime organizado e a preocupação com a segurança pública. O desgaste vivido pelos governos de esquerda na região também é evidente e tem proporcionado a ascensão de nomes ligados à direita. O mais recente exemplo dessa onda é o colombiano Abelardo de la Espriella (imagem), que venceu o primeiro turno das eleições em seu país, com 44 % dos votos (seu opositor, o governista Ivan Cepeda, de esquerda, ficou com 41%).

Além da preocupação com a violência, a América Latina parece se unir em torno da polarização política. No caso da Colômbia, por exemplo, a candidata conservadora Paloma Valencia foi vista pelos eleitores locais como moderada demais. Resultado: teve apenas 7% dos votos, embora as pesquisas eleitorais previssem que ela obteria pelo menos 20% dos sufrágios.

Espera-se que os eleitores de Paloma se unam aos de Espriella. Neste caso, a vitória na Colômbia deve ser dos direitistas. Será que esse cenário pode se repetir no Brasil?

Por enquanto, a eleição ainda está aberta. Flávio Bolsonaro, antes do episódio “Dark Horse”, estava em franco crescimento e já havia ultrapassado numericamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas enquetes sobre a corrida presidencial. Depois do vazamento das conversas entre o senador e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, porém, houve uma queda do principal candidato de oposição. Mas essa retração não foi suficiente para tirá-lo do páreo.

Assim como Espriella, Flávio admira a estratégia de Nayib Bukele em El Salvador (já esteve no país e inclusive visitou presídios nos quais os membros do crime organizado ficam encarcerados). Os dois falam a mesma língua — segurança, anticomunismo, redução do Estado —, mas com registros um tanto diferentes.

Espriella enquadra sua campanha como uma missão de salvar a Colômbia de “quatro ameaças: autoritarismo, violência criminal, corrupção política e penetração do narcotráfico”. Sua plataforma inclui tecnologia blockchain na contratação pública, criação de um “Bloco Anticorrupção” e política de mão dura contra o crime e grupos armados. É uma direita que tenta modernizar o discurso com verniz tecnológico.

Já Flávio opera num registro mais emocional. Sua narrativa é essencialmente a do bolsonarismo sem Bolsonaro — o que o torna ao mesmo tempo forte (herda uma base consolidada) e vulnerável (depende de manter vivo o entusiasmo de quem votar no pai, não no filho).

Os dois representam um fenômeno latino-americano mais amplo: a direita que chegou ao poder (ou está chegando) não pelas vias tradicionais de partido, mas pelas redes sociais. Além disso, a América Latina vive um momento em que a segurança pública se tornou o eixo central das campanhas e das decisões políticas. A ascensão de líderes que prometem enfrentar o crime com rigor reflete o cansaço da população diante da violência e da corrupção. Esse movimento, embora diverso em cada país, revela uma busca comum por estabilidade e eficiência, mesmo que os caminhos escolhidos variem conforme as realidades locais.

O desafio, em teoria, está em equilibrar o desejo de ordem com a preservação das liberdades democráticas. A região parece caminhar para um novo ciclo político, em que a tecnologia, a comunicação direta com o eleitor e o discurso de segurança moldam o futuro das lideranças. Resta saber se essa convergência será capaz de fortalecer as instituições ou se ampliará as tensões que há décadas afligem o continente.

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