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A polarização acabou com o “efeito teflon”?

Aluizio Falcão Filho
21 de março de 2026

Nos anos 1990, havia um fenômeno interessante em Brasília. Denúncias e turbulências prejudicavam o governo, mas a imagem do presidente Fernando Henrique Cardoso quase não era arranhada. Foi nessa época que surgiu a expressão “efeito teflon”, fazendo referência ao material antiaderente utilizado pelas panelas naquela década. Como as notícias ruins não grudavam em FHC, essa expressão representava a capacidade do presidente de passar incólume por acusações como a compra de votos para aprovar a reeleição ou corrupção nos processos de privatização.

A blindagem, porém, não resistiu integralmente ao segundo mandato. O colapso cambial de 1999, o apagão de 2001, o avanço do desemprego e o aumento da dívida pública desgastaram o governo e reduziram índices de aprovação. Ainda assim, a imagem de FHC terminou o período menos afetada do que a de outros presidentes submetidos a pressões semelhantes.

O cenário político mudou bastante de lá para cá, especialmente com a polarização que tomou conta do país a partir de 2018. Dentro deste mundo polarizado, o “efeito teflon” ainda poderia existir?

A disputa eleitoral de 2026 ocorre em um ambiente marcado por identidades políticas muito consolidadas, o que favorece mecanismos de blindagem semelhantes ao que ocorreu com FHC – só que de forma segmentada. Nesse cenário, grupos de eleitores tendem a interpretar críticas a suas lideranças como parte de um conflito mais amplo entre campos rivais, reduzindo o impacto de denúncias e crises sobre a percepção interna de cada bloco. A polarização cria um terreno em que a fidelidade pesa tanto quanto a avaliação de desempenho. Portanto, cada lado ideológico cria o seu “efeito teflon” particular.

Desta forma, petistas rechaçam qualquer tipo de acusação de corrupção ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Já os bolsonaristas minimizam o caso de “rachadinha” do senador Flávio Bolsonaro, ocorrido quando ele era deputado estadual pelo Rio de Janeiro.

As redes sociais também ajudam a turbinar o “efeito teflon” ideológico através de ataques maciços aos adversários. No caso do banco Master, por exemplo, é possível ver acusações de que esse é um escândalo ligado à direita; em outros posts, porém, incrimina-se personagens de esquerda.

A eleição de 2026, portanto, reúne condições para que fenômenos semelhantes ao “efeito teflon” apareçam nos dois principais polos políticos do país. A disputa, dessa forma, deve ser marcada por essa combinação de lealdade ideológica e limites filtrados pela realidade que cada lado enxerga. O debate, no entanto, sai perdendo. Quando os principais líderes são poupados de qualquer crítica por parte de seus grupos, os dois grupos ficam estagnados, gastando tempo apenas para atacar os adversários. Tudo isso acaba contribuindo para a consolidação de um eleitor que vota prioritariamente contra alguém e não a favor de um candidato em particular. Este fenômeno é um atraso para nosso país, que precisa de maior clareza de propósitos e uma agenda positiva por parte dos presidenciáveis.

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